Camarro Fest – Um terceiro ataque à cidade do heavy metal

Mais um fim de semana e partíamos a terceira edição de um festival que já conquistou o seu espaço no coração do público nacional. Dois dias que conduzem todos os espíritos perdidos a conjurar na margem sul, mais propriamente no Barreiro. No passado dia 2 e 3 de Fevereiro estivemos na Sociedade de Instrução e Recreio Barreirense “Os Penicheiros” e voltámos com muitas histórias para contar.

Dia 1

Acabados de chegar, damos de caras com os My Enchantment já em palco. O death metal melódico e uma imagem forte foram devidamente acompanhados por máscaras, capas e uma atmosfera sombria, pejada de teatralidade, e rapidamente se revelaram o aquecimento perfeito para uma noite que ainda muito prometia.

O death metal daria rapidamente lugar ao black metal atmosférico dos já nossos conhecidos Gaerea. As referências folk e a ligação obscura que mantêm com os elementos naturais continuam a ser alguns dos seus pontos fortes. As máscaras e a tinta que usam para cobrir parte do corpo são elementos fundamentais para que se gere uma atmosfera desesperante, a par dos registos vocal e instrumental sufocantes.

Attick Demons

Depois de uma atribulada viagem, foi hora de regressar exactamente onde estávamos, na companhia de outras tantas sonoridades metálicas mais clássicas. Os Speedemon oscilam entre o speed, power e thrash como tão poucos são capazes e foi com alguns temas do EP lançado em 2015 que voltámos a sentir os pés na terra. Fizeram-se sentir as primeiras intenções de movimento, embora tímidas e a partir daqui e se sentiram as primeiras manifestações de movimento.

Se há nomes que dispensam apresentações no panorama nacional, um desses nomes é Analepsy. A banda tem vindo a tornar-se uma presença constante nos palcos nacionais, e nos palcos de inúmeros festivais de grind e brutal death metal internacionais, sempre pelos melhores motivos. Para além desta bagagem invejável, continuam a deixar marca por onde passam, nos estreantes e nos restantes. Uma bateria que nos acerta constante e cirurgicamente nas têmporas, um trio de cordas que torna o headbanging um mal menor e uma voz castigadora fizeram parte do menu do dia, e nós agradecemos.

Gaerea

Foi dentro de uma escuridão tão somente iluminada por velas que vemos os The Ominous Circle subirem a palco, seres sem cara que chegam de norte para nos entregar uma sonoridade que paira entre o death e black metal, e que tanto tem dado que falar, até além-fronteiras. Trazem consigo o frio e a agressividade de uma atmosfera cortante, que em muito contribui para que o seu “Appaling Ascension” figure em numerosas listas dos melhores álbuns de 2017. Ainda assim, é indispensável assistir ao ritual com os nossos próprios olhos, onde figuras perdidas libertam chamas a par e passo de riffs cuidadosamente desenhados entre a técnica e a melodia.

Quando o corpo se preparava para o descanso, o Barreiro relembrou-nos de que esta noite ainda não tinha sido dada como terminada. Se algumas bandas não fazem por merecer palavras, outras simplesmente não precisam delas. Estes híbridos Scum Liquor, metade rock, metade punk, não se comprometem e, talvez por isso mesmo, nunca desiludem. Rápido e cru, como se quer, o quarteto comandado por Neverendoom continua a deixar um rasto de destruição, e desde que a missa saia bem regada, pouco ou nada é preciso acrescentar.

Dia 2

No segundo dia chegámos ao Barreiro com alma renovada e confessamos que uma das melhores coisas que aquele espaço oferece é, sem dúvida, o bar exterior ao recinto onde acontecem os concertos. A sociedade está mais do que preparada para receber todos os que se juntam para comer, beber ou simplesmente conversar e mais uma vez se percebe o porquê de se organizarem eventos como este. Sob o risco de soar cliché, sentimos-nos em casa na “cidade do heavy metal”, segundo palavras de uma das bandas presentes.

Sacred Sin

A primeira banda a subir a palco foram os New Mecanica, que depois do lançamento de um single com direito a vídeo no final do ano passado, se atiraram aos lobos e mostraram a todos os presentes aquilo que podemos esperar do seu álbum de estreia, “Vehement”, a sair ainda este ano. Groove e atitude positiva marcaram a actuação da banda e deixaram-nos (ainda mais) na expectativa para aquele segundo dia de festival.

Os Attick Demons já quase dispensam apresentações e foi com o seu heavy metal clássico que embalaram todos os presentes, onde não faltaram temas do seu mais recente trabalho “Let’s Raise Hell”. Para além de ser impossível não acompanhar aquele ritmo contagiante com algum headbanging, acabamos também a ceder à energia interminável do vocalista e acompanhar refrões, riffs de guitarra e uma ou outra pose mais épica.

O hardcore estava em minoria no cartaz, mas nem por isso se deixou abalar. Os For The Glory estrearam-se no Barreiro e foi claro que muitos se deslocaram até ali apenas para os ver tocar. Apesar de intercaladas com alguns imprevistos na bateria, a atitude DIY e boa energia não faltaram. Mesmo sem ser um dos pontos altos do festival, as movimentações do público fizeram-se sentir e surgia assim o primeiro mosh pit da noite. Do início ao fim não faltou vontade de puxar pelos presentes, sinceros agradecimentos e, claro, a lembrança de que o nosso underground pouco deve a rótulos e o apoio pode e deve partir de todos.

The Ominous Circle

Numa fase em que passam grande parte do seu tempo na estrada, encontramos os Sacred Sin, que também têm sido presença assídua nos nossos festivais de Inverno. Depois de algum tempo afastados dos palcos, contam agora com o seu “Grotesque Destructo Art”, lançado em 2017, e um novo guitarrista, para continuarem a castigar o público com o seu death metal oldschool, onde nunca deixam faltar os clássicos de uma banda com mais de 25 anos de carreira.

Os Filii Nigrantium Infernalium são daquelas bandas incontornáveis no que à história do necro rock’n’roll e black metal nacional diz respeito. Outra banda que não deixa espaço para dizer que já cansa ver outra vez, anunciou um regresso em força (e novos temas) após um longo período de espera, e demonstra continuar naquele que podemos considerar o seu ponto alto no que a actuações ao vivo diz respeito. Com um frontman simplesmente inspirador, falou-se da besta, dos salmos, de “Necropachacha” e até daquelas decisões mais corriqueiras do dia-a-dia. Um público dedicado e sedento marcou a diferença, tendo contribuído para um dos momentos altos do festival.

Systemik ViØlence ou G.I.S.M. dos pobres, pelas palavras de Iggy Musäshi. Instável, inconformado e perigoso. Caos e desordem generalizada provam que este conjunto de foras da lei estão determinados a virar qualquer um do avesso. Literal e metaforicamente, a mim, a ti e à tua avó. Sim, isso, afinal sob o mote “Punk é protesto” ainda cabemos todos. O objectivo continua a ser despertar reacções nos dormentes, que, a avaliar pelo status quo, somos todos. Num after party onde poucos pareceram muitos, não ficou pedra sobre pedra, e em tom de despedida libertou-se um tímido inconformismo, com direito a húmidos afagos (de escarros) e balaclavas perdidas.

Filii Nigrantium Infernalium

Mais um fim de semana entre amigos, onde não faltaram boas bandas, comida, bebida e as tais histórias para contar. Ficamos em stand by, à espera de um quarto ataque à cidade do Barreiro.

Galeria Completa AQUI

Texto de Andreia Teixeira
Fotografias de Andreia Vidal

 

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