LVHC a coesão no Underground Português

Mais um fim de semana, mais uma voltinha. 2018 chegou determinado a não nos dar descanso e ainda só estamos em inícios de Fevereiro. Desta vez a “carrinha de reportagem” da Loudness parou pelos lados de Linda-a-Velha, para acompanhar o festival organizado por um dos núcleos mais antigos e coesos do nosso underground musical.

O Linda-a-Velha Hardcore Fest apresentava novo cartaz recheado para os dias 26 e 27 de Janeiro, a acontecer na Academia Recreativa de Linda-a-Velha, e se há coisa de que esta organização se pode gabar é de conseguir apresentar de ano para ano alinhamentos que agradam a gregos e a troianos.

RoadScum-6

Dia 1

Escusado será dizer que o factor referido em muito contribui para o ambiente que ali se vive, e a primeira banda a actuar no festival foram os lisboetas Roädscüm, a abrir hostilidades com um feeling oldschool e atitude inconsequente de cigarro nos beiços, onde três vozes e guitarras afinadas fizeram os poucos parecerem muitos, ao acompanhar as partes mais catchy de temas como “Primal Call” e “Streets Of Decay.” Antes que pudéssemos entregar as nossas orelhinhas a satanás, pudemos presenciar um tributo a Lemmy e a uma incursão de guitarra no meio do público.

A segunda actuação do dia ficava a cargo dos Scum Liquor que trazem da Amadora o seu apetite por destruição e uma insaciável sede. Tem percorrido os palcos de norte a sul com a sua No Rehab Tour e a Academia de Linda-a-Velha não foi excepção. Encontraram um público a meio gás, mas a verdade é que algumas bandas têm a capacidade de fazer qualquer sala parecer cheia, e foi este o caso. Quem está, está, quem não está, estivesse.

BoobyTrap-5

Em representação de sonoridades nortenhas, foi altura de vermos os Booby Trap em palco e presenciar a estreia da banda naquele festival. Donos de uma energia e groove contagiantes, responsabilizaram-se por fazer mover os presentes e com a abertura de um mosh ainda tímido, apareceram também os primeiros destemidos no crowdsurfing. Foram curtas baladas dedicadas a amigos e restantes presentes, entre as quais se ouviu o tema “Nightmare” e uma cover de “Ace Of Spades.”

Os Theriomorphic apresentaram-se com a sua já conhecida formação e foram uns dos porta-estandartes do death metal oldschool no evento. Foi entre o equilíbrio minucioso entre a agressividade e a melodia que encontrámos o registo vocal dinâmico de Jó e João Duarte, combinado com alguns riffs de guitarras mais orelhudos. Numa performance coesa, revisitámos os clássicos e pudemos ainda ouvir um dos temas que virá a integrar o novo álbum da banda, com o título “Fire”, tocado pela segunda vez ao vivo.

Backflip-4.jpg

Num dia carregado de sonoridades mais pesadas, foi sem dúvida refrescante cruzar sentidos com os Backflip, que nos relembraram que os alicerces daquele evento ainda assentam no hardcore. No primeiro concerto do ano dado pela banda, aproveitou-se para disseminar a mensagem de que a união faz a força e que tanto as bandas como o público só têm a ganhar com a organização de eventos onde é possível ocorrer uma fusão de estilos e família. Com uma actuação forte não deixaram ninguém indiferente e prometem novidades para este novo ano.

De uma lista de bandas que se têm mantido bastante activas fazem parte os Sacred Sin, que mesmo contando com mais de vinte anos de carreira, demonstram bem que é possível uma constante reinvenção sem perda de identidade. Para além de nos apresentarem temas do seu mais recente trabalho “Grotesque Destructo Art”, continuamos a poder contar com alguns clássicos, bem como algumas surpresas, como foi o caso da apresentação de um novo membro e guitarrista.

Os Dr. Bifes e os Psicopratas fecharam o dia com um espírito mais descontraído e uma atitude irreverente, tão bem acompanhada pelos seus trajes e caracterizações. A primeira dica foi para que nos chegássemos à frente para que se perdesse a ideia de que estávamos num baptizado, e a partir daí perdemos-nos entre piadas, balões e algum stagedive.

Dia 2

O segundo dia avizinhava-se ligeiramente mais caótico, uma vez que olhando para o cartaz se podia reconhecer um certo regresso a casa, com bandas conhecidas e um tom definitivamente mais hardcore.

Com Somber Rites pudemos contar com algumas caras que não nos são de todo estranhas no meio, embora ocupem normalmente posições ligeiramente diferentes, como é o caso do vocalista. Os cinco membros deste recente projecto, já com bastante potencial, aproveitaram para nos dar a conhecer alguns temas e deixar a mensagem de que ainda têm muitas cartadas na manga para este percurso que agora começa.

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Do Algarve a Lisboa vieram os também já nossos conhecidos Patrulha do Purgatório e o seu repertório continua a fazer os presentes acompanhar letras de que se continuarão a lembrar uma semana depois. O movimento na sala continuou ao som de temas como “Enterrado na Loucura”, “Na Minha Terra” e “Lisboa a Arder”, sobrou espaço para um pequeno tributo a Mata-Ratos e a participação de uma voz convidada.

A terceira banda do dia foram os Doink, também eles vindos de norte e com vontade de encher os ouvidos presentes de música pirata. Apresentaram a sua sonoridade num registo diferente, com uma atitude, letras e sobretudo voz sendo rapidamente associadas à vida nos subúrbios. Sem desistir de um público que por vezes se demonstrou público, lá conseguiram pôr os presentes a acompanhar um ou outro tema.

LastHope-2.jpg

Entre pausas para convívio, acompanhado de comida e bebida, no piso de baixo da Academia de Linda-a-Velha, chegava a hora de assistirmos ao regresso dos Last Hope. Longe dos palcos durante dois anos, a banda apresentou-se com garra, num regresso em forma mesmo com o vocalista com um braço ao peito. Rapidamente se demonstrou que se sentiam em família, tanto pelas dedicatórias de alguns membros como pelo número de pessoas que acompanhavam as suas letras, deixando também a mensagem de que em breve teriam novidades para os fãs.

Os Alien Squad são uma banda de Leiria e contam já com mais de 25 anos de carreira. Pegaram em temas dos seus três álbuns lançados e marcaram a diferença naquele dia com uma sonoridade mais thrashy. O público continuou a responder bem e as movimentações na sala, embora tímidas, lá continuaram.

Grankapo-7.jpg

Caso ainda não tivesse ficado claro, é com estes eventos que se prova que o que não falta em território nacional são excelentes bandas e que é o espírito de entreajuda entre as pessoas do meio, artistas e público, que se mantém a cena viva. Nada melhor do que guardar para o fim a actuação de Grankapo para nos recordar isso mesmo. Já bem conhecidos pela comunidade hardcore, não só se fazem acompanhar por uma forte base de fãs, como não deixam esmorecer a vontade e atitude necessárias para recrutar mais alguns. A música é dura, mas feita para a “família” e foi sobretudo nestas actuações mais tardias que ainda se revelou o fôlego dos presentes.

Trinta&Um-19.jpg

Como não podia deixar de ser, o encerramento deste LVHC voltou a estar a cargo dos Trinta & Um, banda que se dedica à organização deste evento ano após ano. Foi claro que a banda continua a ser a mobilizadora de muita gente que ali se desloca e no caos, que durou do início ao fim, perdeu-se a timidez do público e o stagedive não arredou pé. Foi então esta a nossa oportunidade de participar nas celebrações dos 20 anos de “O Cavalo Mata”, com muito discurso por parte de Zé Goblin, onde continua a ser clara a mensagem de protesto e ao mesmo tempo de união. Entre sinceros agradecimentos a todos os presentes e membros da banda quase se verteu uma lágrima, e foi impossível ficar indiferente ao espírito que ali se vive. Determinados a não deixar de pé o que quer que fosse que tivesse sobrado da festa, entregaram-nos mais uma hora de punk hardcore português à séria e a promessa de um LVHC 2019. Saímos de alma renovada.

Galeria Completa AQUI

Texto de Andreia Teixeira
Fotografias de Andreia Vidal

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