Do sangue aos confettis – O regresso do XXXapada na Tromba

A inaugurar um ano que já se avizinha difícil no que toca a escolha e organização da nossa agenda de concertos, chegava-nos um fim de semana de tortura e castigos, mas daqueles que se vivem (e recordam) sempre com um sorriso nos lábios.

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O regresso do XXXapada na Tromba fez-se no dia 19 e 20 de Janeiro, no RCA Club em Lisboa, e não só contou com um elenco de peso como já se pode antever o que esperar para a próxima edição deste festival, agendada para 2019.

Dia 1

No dia 1, o início das hostilidades ficou a cargo dos portugueses Burn Damage, já conhecidos do nosso público e ainda com o seu “Age of Vultures” a mostrar o bom e o bonito que o underground português tem para oferecer. A aguçar o apetite para o novo álbum que a banda tem na calha, há sempre espaço para alguns temas novos e, como sempre, é difícil ficar indiferente à presença e atitude da vocalista.

Seguia-se o primeiro nome internacional desta edição, representado em tons de goregrind pelos belgas Brutal Sphincter. Fez-se a festa apenas com o vocalista e um guitarrista em palco, mas o entusiasmo destes membros, bem como a participação dos habituais freaks que se revelam e libertam no seu habitat natural, fez desta actuação uma excelente previsão do que ainda estava para vir.

Entre curtos intervalos e um Schedule seguido à risca, tirando algumas alterações de última hora, subiam a palco os alemães Stillbirth. Munidos do seu brutal death metal e sem deixar os seus calções verdes passar despercebidos, foram das poucas bandas a cumprir o dress code que se espera num evento deste tipo. Resumindo a coisa em Gore’n’Surf, foi com uma energia contagiante e um som castigador que conseguiram arrancar reacções de um público ainda ligeiramente tímido.

Sem espaço para que essa timidez de mantivesse durante muito mais tempo, voltámos aos nomes portugueses e apareciam em palco os Burned Blood. O quarteto marcou a diferença com o seu death metal melódico e a atitude bem-disposta a que já nos habituaram, puxando pelo público e abrindo alas para as primeiras movimentações que incluíram balões.

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No final da primeira parte do primeiro dia já tínhamos tido direito a um pouco de tudo, entre freaks, morangos e balões em palco e na plateia. Entre a pausa para jantar e o regresso pouco mudou, o mosh e o stagedive continuou e como não se podia deixar a animação por mãos alheias, a juntar aos factores já referidos, apareceram ainda uns ocasionais e refrescantes duches de cerveja, vindos não se sabe bem de onde.

O retorno ao caos fez-se ao som de deathcore com os Embrace Your Punishment, que trouxeram o seu groove francês até à sala e, com apenas um álbum lançado, se mostraram extremamente competentes em fazer mover as massas ali presentes, entre temas como “Burning Skies” e “Alone In This Pit” (que foi coisa que nunca se sentiu).

Como se costuma dizer “ainda a procissão ia no adro” e apenas se podia dizer que ainda muito sangue, suor e lágrimas (de tanto rir, claro) havia para correr naquela noite.

Nem de propósito, chegava a hora dos nossos Bleeding Display ocuparem o seu lugar no palco. Um vocalista que se faz acompanhar por um machado e manchas de sangue espalhadas resumem bem o que podemos esperar das actuações desta banda. Não que nos sejam desconhecidas, mas porque nenhuma vez nos soa repetitiva, e para tal em muito contribui o facto de serem donos de uma sonoridade e dinâmica única. Ouviram-se temas como “Beyond Flesh” e o clássico “Remains To Be Seen” com a participação do organizador Sérgio Páscoa na voz.

A determinado ponto já se deixavam ver entre o público um Messias e uma freira algo tímida, entre outras criaturas e objectos duvidosos, e sem dar conta de o tempo passar víamos os Korpse entrar em palco e tentar dizimar o que restava de anteriores actuações. Com um projecto relativamente recente conseguiram captar a atenção e manter o público a mexer, mas todos os presentes ainda tinham muito para dar… e aguentar.

Chegou a vez dos Grog, com o seu “Ablutionary Rituals” lançado há menos de um ano e uma energia demolidora, nem que seja pelo facto de nos triturar a alma e revolver as entranhas sempre de sorriso nos lábios (literalmente). São precisos alguns anos de estrada e palco para nos apresentarem temas como “Gore Genome”, “Sterile Hermaphrodite” e “Beyond the Freakish Scene” num ambiente de falsa tranquilidade que se revela devastador.

Entre agradecimentos e alguns detalhes sobre o festival e a banda, ainda nos preparávamos para o que estava para vir. Os Katalepsy seriam dos nomes mais esperados desta edição do festival e, mal subiram a palco, deram de caras com uma sala bastante composta para os receber de braços abertos, não para um abraço, mas sim em tom de batalha. De Moscovo para Lisboa com o seu technical brutal death, criaram o ambiente perfeito para um dos primeiros wall of death do festival e não deram descanso ao pescoço do público presente com os seus tons mais groovy.

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E para terminar a primeira parte deste evento já de si bastante caótico, vieram os Serrabulho com as suas boias (que por vezes de revelam pouco amistosas) e típicos trajes. Entre stagediving com colchões de praia, mais confettis, mais cerveja e a participação do vocalista de Gutalax na cover “Cripple Bitch”, viu-se um pouco de tudo. A juntar ao público, staff e mais boias em palco, a loucura parecia não ter fim entre temas como “Toco Loco Du Moi”, “Caguei na Betoneira” e “B.O.O.B.S”, contou-se novamente com o contributo de Sérgio Páscoa e também de Paulo Gonçalves (Rasgo, Ignite the Black Sun).

Abandonámos o local satisfeitos, confesso que sem grande vontade de seguir para a cama depois de uma festa destas, mas sobretudo com elevadas expectativas para o dia que se seguiria.

Dia 2

O segundo dia abria com os Dead Meat, expressão que também se podia aplicar ao público durante as primeiras horas em que ainda era notória a tentativa de recuperação de um primeiro dia de festa rija. Vindos de norte, contam já com mais de 20 anos de carreira e foi com temas do seu “Preachers of Gore” que tentaram reanimar os presentes e lá se começava a fazer sentir o funcionamento das engrenagens para mais um dia de tortura feliz.

Desta feita apercebemo-nos durante o intervalo que não só podíamos como devíamos procurar algumas das freaks ao serviço da festa para nos açoitarem com um chicote, o que nos relembrou que afinal nem todos os brindes em festivais são maus.

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As internacionalizações continuaram, e não só o público como também as bandas continuaram a reforçar esse factor. Os franco-tunisinos Kaliyuga estrearam-se por terras lusitanas há menos de um ano, mas nem por isso demonstravam menos vontade de regressar e alimentar um pouco mais a destruição a que os portugueses já os habituaram. Com uma dinâmica bastante interessante, o trio apresenta uma sonoridade e temática própria, salientada pela atitude e pelo contraste criado entre as vozes da vocalista e do guitarrista da banda.

De volta aos nomes nacionais, foi a vez da Besta mostrar que também por cá se produz som abrasivo. Entre as típicas mensagens contra o racismo e outras tantas que pretendem despertar a consciência social, ouve-se “que se foda o ego” e é de corpo e alma que os presentes se entregam à prestação da banda. Para além do castigo que sofremos a nível instrumental, desde a projecção de voz com o microfone preso entre dentes até aos saltos entre colunas, é também inevitável deixar passar a enorme presença do vocalista em palco.

Ainda antes da tão merecida pausa para jantar, devidamente intercalada com outras pausas onde se ouvia “xxxapada ou chicote?”, houve espaço para que fossemos novamente surpreendidos. Com direito a casamento, mas sem copo d’água… sim, leram bem.

A última banda a tocar ainda na primeira parte deste segundo dia foram os Lvnae Lvmen, que juntam alguns nomes conhecidos do underground português na sua componente instrumental e contam com Sérgio Páscoa na voz. Para além do regresso que representou esta actuação, foi também a altura em que amigos subiram ao palco para celebrar o casamento de Sérgio Páscoa e Xana Palos. Foi ainda a recuperar deste momento tão carinhoso que tantos se deslocaram nas imediações, para jantar e quiçá recuperar alguma energia para o que ainda restava da noite e do festival.

Já de estômago reconfortado, regressámos para receber os britânicos Omnipotent Hysteria e o brutal death metal do seu mais recente lançamento, “Abbatoir of Slain Deities”, que acabaram por se revelar o aquecimento perfeito para a chacina que ainda poderíamos presenciar naquela noite.

De seguida subiram a palco os Extermination Dismemberment, que mal deixaram pedra sobre pedra com a sua atitude e um som absolutamente esmagador. O groove constante impediu que o headbang e o moshpit parasse e temas como “Rotten Entrails” e “Babykiller” só contribuíram para aumentar a entropia, numa sala já prestes a entrar em ebulição.

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Foi também sem demora que os italianos Guineapig tomaram as rédeas da situação e, com apenas um álbum lançado, nos brindaram com cerca de quarenta minutos do seu goregrind mais sério, e ao mesmo tempo rápido e abrasivo. O público continuava a responder à altura e cada vez mais se podia sentir que mais um dia de festival era no fundo aquilo que todos desejavam.

Os Analepsy chegaram em boa hora para reforçar o espírito de família que se vive naquele festival e sobretudo entre todos os envolvidos no cenário grind. Relembraram novamente a todos os presentes que está mais do que justificado a existência de festivais deste género em território nacional e que é mais do que merecido que as nossas bandas tenham o merecido destaque, tanto dentro como fora do país. Outra performance intensa, com uma resposta massiva por parte do público, entre o mosh agressivo e malhas como “Vermin Devour”, “Viral Disease” e “Genetic Mutations, que contaram em palco com a participação de Toká dos Serrabulho e Sérgio Afonso dos Bleeding Display.

Uma segunda vez naquele mesmo fim de semana, víamos em palco um dos nomes mais esperados do cartaz, os Gutalax, vindos directamente da República Checa e com muita vontade de festejar a sério com um público bastante dinâmico e dedicado. Público esse que não lhes é de todo estranho, tendo em conta a passagem da banda por festivais como Butchery At Christmas Time e SWR Barroselas. Entre inúmeros temas que se debruçam sobre uma das temáticas humanas mais naturais, encontrou-se espaço para colocar um porco e um barco em palco, sugerir um wall of death com o objectivo de partilhar beijinhos e ainda lhes sobraram cinco minutos para quatro bonitas canções.

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Depois de um intenso momento com os Gutalax, foi altura de nos despedirmos do XXXapada na Tromba por mais um ano. E quem melhor do que os Systemik Violence para encerrar as festividades? Com uma atitude incómoda, mas incomparável, não conseguem deixar de marcar e libertar o que ainda sobrava nos freaks que se aguentaram até aquela hora. Quatro indesejáveis que chegaram para e conseguiram (como sempre) destruir o pouco que ainda ficava de pé com o seu d-beat raw punk pejado de verdades, mais ou menos ofensivas.

Um fim de semana de maravilhosas torturas, em que mesmo com alguns imprevistos e muitas surpresas à mistura se revelou um excelente regresso do festival que reúne os maiores freaks da capital em actividades mais ou menos próprias, dependendo da sensibilidade de cada um. A próxima edição já está na nossa agenda, marcada para os dias 18 e 19 de Janeiro de 2019 e conta já com um novo elenco de luxo.

XXXapada is Grind, XXXapada is Love.

Galeria Completa AQUI

Texto de Andreia Teixeira
Fotografias de Andreia Vidal

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