Gothic girls, fado e protesto – Uma entrevista a David J, fundador dos Bauhaus e Love and Rockets

As Warm-Up do Reverence Santarém contam com David J Bauhaus.jpg

Foto retirada da Internet
Entrevista gentilmente concedida a Loudness após o concerto no Sabotage cuja reportagem pode ser lida AQUI. Mais uma vez o nosso agradecimento pela incansável ajuda e simpatia da Raquel Lains

LOUDNESS: Sabemos que esta é a tour de apresentação de “Vagabond Songs” e também que se baseia nas histórias de algumas pessoas com quem te tens cruzado. Como é que surgiu a ideia para a composição deste álbum?

DAVID J: Bom, a ideia surgiu porque esta tem sido a minha vida desde sempre. Ando na estrada há muitos anos e acabo por cruzar-me com muita gente, sobretudo porque faço muitos living room shows. Ocasionalmente toco em clubs e a maior parte das vezes são terceiros que escolhem o local, por isso os concertos tanto podem acontecer numa loja de tatuagens como em igrejas, capelas, um quartel de bombeiros… e regularmente acabo por tocar mesmo em salas de estar. Tudo o que escrevo reflecte muito a minha vida, por isso a maior parte das vezes escrevo em tour e acabo mesmo por gravar os temas enquanto viajo. Foi assim que cheguei a este álbum. Não o planeei de todo! Aliás, nunca planeio o que escrevo ou gravo, apenas acontece ter uma boa colecção de temas sobre um determinado tema.

L: Esses living room shows acabam por acontecer sobretudo nos Estados Unidos, certo?

D: Sim, sobretudo nos Estados Unidos. Mas eu gostava de começar um circuito desse género aqui, embora vocês tenham estes concertos em venues mais pequenas, há já algumas pessoas a promoverem algumas living room sessions por aqui e eu acho importante, porque afinal torna qualquer experiência mais íntima. Acabo por conseguir estar com as pessoas, senti-las mais perto, perceber como é que chegaram até à música. É comovente e faz-me sempre querer retribuir-lhes de alguma maneira.

L: Sabemos que a ideia inicial era conseguir que esta tour fosse além-fronteiras estadunidenses. Para além deste concerto em Lisboa, o que mais está planeado?

D: Vou andar pela Europa com esta tour durante quatro semanas. Vou estar no Porto amanhã, depois tenho mais dois concertos em Praga, vou também estar pela primeira vez em Bucareste e Budapeste, depois Torino, vou estar uma semana em Berlim porque também vou gravar lá, e finalmente Londres.

davidjbackhires-sm.jpgL: Os temas do álbum falam de pessoas inseridas em que contexto? Estas histórias são sobre promotores e outros músicos, ou sobre fãs?

D: Bem, sobretudo pessoas com quem me cruzo em contexto de concertos, claro. Mas muitas vezes é mais do que isso. Há algumas love songs no álbum, por isso é fácil de perceber que muitas vezes acabam por ser histórias sobre gente bastante próxima.

L: E dentro destes temas há algum momento ou história que te tenham marcado especialmente?

D: O tema que sem dúvida me ficou mais marcado foi “The Day That David Bowie Died.” Simplesmente fluiu. Eu estava perto de Portland a fazer mais alguns living room shows e no dia em que o último álbum dele saiu, comprei-o logo. Lembro-me perfeitamente de que nesse dia tinha tocado em Seattle e nessa mesma noite, hospedado numa casa bastante agradável, com uma cave escura e acolhedora, encontrei o ambiente ideal para ouvir o álbum. Senti-me instantaneamente arrebatado pelo “Black Star.” Quando o voltei a ouvir, já com uma visão e contexto diferente, quebrei completamente… é um álbum triste. Eu conheci o David Bowie pessoalmente e tudo me veio à memória, especialmente com aquela última faixa “I Can’t Give Everything Away” que alude a parte de outra música dele, “A New Career in a New Town” em Low. Isto porque eu estava em tour com Bauhaus e lembro-me que havia uma jukebox algures e eu estava a tentar escolher uma música, até que me apercebo que há alguém atrás de mim e ouço uma voz perguntar-me: “Posso escolher uma?” Era o Bowie e claro que eu disse logo que sim. Ele escolhe uma faixa chamada “Groovin’ WIth Mr. Bloe” de Mr. Bloe e eu instantaneamente reconheço e percebo de onde veio a harmónica que ele usou em “A New Career in a New Town”, e ele começa a dançar à minha frente. Estávamos só os dois e aquilo foi tão surreal, com ele a dançar e a sorrir para mim. Por isso quando ouvi o “Black Star” e na noite em que soube que ele nos deixou, aquela parte da música voltou a tocar e para mim foi um momento tão pesado e intenso. O que ele está a dizer é que sabia que ia morrer e eu acho que ele sabia exactamente quando é que isso ia acontecer. “New Town” representa um afterlife e “a new career” o que ele vai estar a fazer nesse local, nesse momento, e perceber isso deixou-me desconcertado. Dou por mim a chorar copiosamente num quarto de hotel e o instinto foi pegar na minha guitarra e começar a tocar aqueles acordes e cantar aquelas palavras. Estando no estúdio em Portland, para além de gravar outras músicas, claro que tive que gravar também aquela.

L: Ainda sobre o álbum, mas também sobre o concerto de hoje, afinal o que se passa com as raparigas góticas de que tanto ouvimos falar nestes temas?

D: O primeiro tema “Goth Girls In Southern California” foi uma visão que eu tive. Estava em San Diego, na Califórnia, à espera que dessem uns ajustes na minha guitarra. Era verão, estava mesmo muito calor e era perto da meia-noite, quando vejo esta rapariga gótica deslumbrante. Com um estilo quase fúnebre, claro, véu preto, vestido preto, botas pretas, luvas de renda pretas, uma sombrinha preta… e eu voltei a entrar na loja à procura da minha guitarra e dizem-me que vão precisar de mais meia hora, que eu posso usar uma das salas deles enquanto espero, que também tinham lá uma guitarra, no fundo para me entreter. Então foi mais um tema que escrevi ali mesmo, em vinte minutos. Já as outras músicas acabam por fazer parte de uma temática, inserida neste álbum. Quando reúno as minhas músicas para um álbum, mais do que uma colecção de temas, eu gosto de seguir uma narrativa e por isso há sempre um contexto, uma temática associada. Por exemplo, o tema “In The Wake Of The Lady Blue” não é exactamente sobre uma rapariga gótica, mas sobre uma quase gótica e linda rapariga que conheci em New Orleans e de quem senti alguma falta. A última música de que falamos, “Vesuvio’s Window” também inspira um sentimento de “saudade”, algo que se perde, com um sentimento melancólico e ao mesmo tempo delicioso associado a ela. Eu não diria que ela era gótica, só uma rapariga muito bonita que me observava da janela e quando nos cruzámos ela perguntou-me se eu era o Doug e eu disse que não, até que outro rapaz apareceu e confirmou-lhe ser o Doug que vinha de Inglaterra, pelo que ela respondeu: “Hi, I’m Valerie. I’m so happy you’re english, I love everything about England!”

L: Mudando um pouco de assunto, esta não é a tua primeira vez em Portugal, certo?

D: Não! De todo! Já estive cá imensas vezes com Bauhaus por exemplo, que são muito populares por cá. Nós chegámos a tocar para mais de 12 000 pessoas numa das nossas visitas.

L: E qual é a tua opinião sobre Portugal, sobre as pessoas?

D: Eu adoro Portugal! Gosto mesmo muito das pessoas e da cultura. Eu apaixonei-me por Portugal logo na primeira vez que cá estive, é um lugar muito bonito e interessante. E toda a descoberta do fado, é quase como a versão portuguesa do blues… e eu nem sequer falo nada de português, mas a música consegue transmitir tão bem o sentimento. Eu costumo ouvir bastante, tenho alguns álbuns em casa, coisas muito antigas… por acaso agora não me estou a conseguir lembrar de nenhum nome em particular.

R-10417388-1497014696-9164.jpeg.jpgL: Uma vez que estes concertos também acontecem apenas com voz e uma guitarra acústica, qual a particularidade associada aos concertos acústicos quando comparados com outro tipo de concertos?

D: Estar em palco apenas com uma guitarra acústica torna-se sobretudo mais desafiante, tanto para o artista como para o público. A ligação que se forma também é mais forte e a mim agrada-me particularmente despir uma canção, até às suas componentes mais básicas, mais simples. Quer dizer, é a versão mais honesta de qualquer canção. Qualquer tema meu, até os temas que escrevi para os Love and Rockets começavam por ser apenas e tão só isto. É assim que apresento as músicas à banda, na sua verdadeira essência, como se fosse a alma de uma canção.

L: Tendo em conta que este concerto está inserido nos warm-ups para um festival que incide sobretudo no psicadelismo e stoner rock, o que tens a dizer do destaque que este tipo de sonoridade tem hoje em dia?

D: Acho que há muitas bandas a fazer um excelente trabalho nessa área. Eu gosto muito de música psicadélica e há bandas que sem dúvida merecem todo o destaque que têm tido, como é o caso dos Tame Impala, Black Angels e tantas outras.

L: Alguma vez pensaste que a tua/vossa música se fosse tornar tão influente? Na tua opinião, qual foi o vosso papel na história da música e nas bandas que se dizem influenciadas pelo vosso estilo hoje em dia?

D: Quando começámos a tocar, nós só tocávamos aquilo que queríamos ouvir. Era tão simples quanto isso. Tínhamos que ser autênticos, mesmo que isso se revelasse algo pretensioso. Aquele era o nosso verdadeiro eu, mas nós achámos desde sempre que éramos “the bee’s knees”, que éramos espectaculares, tanto em Bauhaus como em Love and Rockets. Mas também sabíamos que era algo que podia durar apenas um ano, e por acharmos que podia ser algo fugaz tentámos sempre dar e tirar o máximo que podíamos da música, da experiência. Também exigiu alguma resiliência da nossa parte porque, mesmo sabendo que éramos bons, nunca deixámos de ser outsiders. No entanto a influência que tivemos com Bauhaus, por exemplo, é até hoje muito surpreendente para mim. Nunca pensámos que íamos ter tamanha influência.

L: Que tipo de som é capaz de influenciar a tua escrita e música hoje em dia?

D: Eu continuo a funcionar como uma esponja até hoje! Tal e qual como acontecia quando era adolescente. Estou sempre a pegar em coisas novas. Uma das influências mais recentes é, por exemplo, Karel Kryl. Era checoslovaco e as músicas dele andaram por aí nos anos 60 e 70, um compositor revolucionário, com muitas canções de protesto. Descobri este nome quando estava em Portland, numa roulotte de comida, e puseram a tocar uma cassete com música checoslovaca dos anos 80 e mesmo sem perceber nada do que ele dizia, o som relembrava-me de alguma maneira o Leonard Cohen. Havia algo de autêntico naquelas músicas e eu perguntei-lhe o que estávamos a ouvir, ele demonstrou-se satisfeito pelo meu interesse e explicou-me detalhadamente quem era Karel Kryl. Contou-me que durante as invasões russas aquela música tinha sido banida e que Karel tinha sido perseguido, mas que continuou a compor e a actuar, a divulgar a sua música mesmo sob ameaça de morte. Fui pesquisando traduções das letras e tudo isto fez com que eu o admirasse ainda mais, e em Praga pretendo tocar uma música dele que se traduz em “His Majesty, The Executioner” e como podem imaginar, rapidamente fiz uma ponte entre essa letra e a situação que se vive com Trump hoje em dia. Mesmo sendo escrita nos anos 60, é uma letra actual e extremamente relevante.

L: Para terminar a nossa entrevista, achas que a música continua a funcionar como forma de protesto e revolução nos tempos que correm?

D: Bem, a música nos anos 60… talvez também nos anos 70, mas sobretudo nos anos 60 a música tinha uma grande influência nesse aspecto e foi extremamente relevante nesse contexto. A verdade é que isso nunca vai voltar a acontecer, há demasiadas distracções, há sempre muita coisa a acontecer. No entanto, quando as pessoas estão num concerto ou ouvem uma determinada música com que se conseguem identificar, isso pode dar-lhes esperança e alimentar-lhes o espírito. Portanto a música continua a ser relevante e estes concertos que tenho feito, sem uma banda atrás, têm-me permitido ver de que maneira a minha música continua a poder mudar a vida de uma pessoa. Talvez tenha deixado de ter uma mensagem universal como nos 60’s, mas passou a ter uma mensagem pessoal, bastante relevante e cheia de significado na mesma. Outra coisa importante que eu vejo acontecer hoje em dia é a regeneração da música ao vivo, as pessoas voltaram a mover-se e a sair para ouvirem a música ser tocada ao vivo e estar com os artistas, e eu acho que o mundo hoje em dia está tão louco que apenas a música pode ajudar a recuperar alguma da esperança.

Texto: Andreia Teixeira

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