A força do underground no Morbid Spring Fest

Era Sexta-feira Santa e as habituais famílias agrupavam-se na Fábrica da Pólvora a aproveitar o sol quando começou a chegar a legião de negro para o Morbid Spring Fest no Pátio do Sol. O local parecia quase demasiado simpático, demasiado acolhedor, mas o barulho típico do soundcheck rapidamente afastou os pais e filhos para outras paragens, deixando o bar e esplanada entregues à decrepitude das horas seguintes.

Num palco onde uma imagem religiosa encimava um piano encostado a um canto, My Dementia começaram atrasados, tocando a sua música melancólica de forma algo insegura, talvez pelo pouco público que assistia pouco interessado no que se passava. Apresentaram temas do seu único EP “The Struggle (to Find One’s Identity)”, misturando um doom mais clássico de voz limpa, vozes rasgadas num death lento e partes mais pesadas à funeral doom. Terminaram com “Flood of Anger”, deixando a sensação de que não terá sido a melhor banda para iniciar as festividades.

Burned Blood foi a banda seguinte, com a sua habitual boa disposição em palco enquanto traziam o seu death caótico à casa. Passaram por temas como “The Change”, “The Evolution of Self” e “Existence”, sempre a tentar puxar pelo pessoal, o que estava difícil, com o baixista Cláudio aos saltos e a passear de meias até à audiência e muitos “Bora lá, caralho!” do vocalista João. Notou-se alguma evolução na coesão da banda e à vontade em palco desde a entrada dos novos elementos da banda (guitarra e bateria). Ainda chamaram à recepção” Bruno, vocalista dos Mass Disorder para ajudar em “The Method” e terminaram o set com a sua clássica “Killing Spree”,

Fomos então contagiados com a energia de Disthrone, um thrash punk anti-sistémico que já viu mais gente no recinto. Apesar das cordas modestas, o baterista P. Tosher partia tudo com excelente ritmo, enquanto Carina mostrava a sua garra na voz, sempre de um lado para o outro, enrolando-se no microfone quase estrangulada e sentindo a música. Abriram com “State: Comatose”, passando por “Anti-system” e “War Criminals”. Carina ainda lançou um “Vocês são do Sporting? É que não parecem estar a divertir-se muito”, antes de tocarem o seu novo tema “NecroRomantic”, sobre “o amor para além da morte”. “Mistress of Evil”, “Álcool e Caos”, entre outros, foram ainda tocados para acabarem com “Addicted to Kill”, com Carina brandindo um pequeno machado de um lado para o outro.

Gaerea chegaram de braços pintados, máscaras escuras, um pedestal feito de troncos para o microfone e o sol a querer já fugir, mood perfeito para o black metal desta banda formada apenas o ano passado. Começando de costas para o público, a performance que poderia ter sido excessiva acabou por resultar pela consistência da música. A bateria construindo e desconstruindo habilidosamente com o vocalista a interpretar cada tema como se a vida dependesse disso, em gritos e queixumes e batendo em si próprio, a melodia subindo e descendo rapidamente. Tocaram o seu único EP homónimo sem nunca se dirigirem ao público, sem quaisquer pausas entre músicas excepto para se virarem de costas novamente, como se não quisessem ser interrompidos no seu ritual. Sem dúvida uma banda a acompanhar, adensaram a noite e deixaram no ar a miséria antes da segunda parte do cartaz do Morbid Spring Fest.

A pausa para jantar foi demasiado curta e rapidamente os Redemptus começaram a tocar o seus sons da escuridão, continuando o negrume que parecia finalmente ter chegado ao festival. O trio conduzia sem esforço o som pesado e arrastado, num post sludge sujo que envolvia distorção de cordas, guturais em sofrimento de cara contorcida, mas também voz limpa por P.R. a apontar o dedo ao público como se acusasse toda a humanidade. Apresentaram temas do seu EP “We all die the same”, editado em 2015, com uma actuação sentida e profissional, indiferente ao público que parecia concentrar-se mais nas mesas dentro e fora do recinto.

Grimlet chegaram com uma vibe completamente diferente, cheios de stamina e fazendo jus aos seus quase 20 anos de carreira. Com o vocalista David sempre animado e a motivar os presentes, batendo com o microfone no peito, ainda disse que “o pessoal que está a comer uma saladinha também pode pôr os braços no ar”. Com as guitarras a fazerem um óptimo trabalho e um interessante baixo de Cláudio, foi pena a bateria de Filipe que parecia sempre um pouco desfasada do resto. Apresentaram o seu novo álbum saído este ano, “Theia: Aesthetics of a Lie”, com mais “Chaoscope” e “Knee deep in the dead” dos trabalhos anteriores e terminando com “Scorching Vision”.

Foi precisa a brutalidade de Bleeding Display para o público se chegar à frente e vibrar com a música rápida e intensa. Foi uma dose concentrada de puro death metal pois “tinham de ser rápidos” e não desapontaram na sua entrega energética em palco. O vocalista Sérgio sempre a saltar e a berrar como um pugilista num ringue lá agradeceu a toda a gente mais aos “cabrões que estão lá fora a mamar cervejas”. Com uma sincronização irrepreensível, tocando quase sem pausas “Persuasive Demons”, “Ways to End”, “Beyond Flesh”, entre várias. Chamaram ao palco Carina dos Disthrone para tocar “Inglorious Killing”, ela com o seu machado pequeno e Sérgio com um machado maior na mão, num dueto dedicado a Nocturnus. Terminaram com “Killing Spree” e foram uma das melhores bandas do festival.

A Tree of Signs trouxeram uma onda muito mais calma, com a bateria de P. Tosher a marcar o ritmo, um som psicadélico a trazer a nostalgia dos anos 70 e o baixo a unir tudo de forma magistral num ambiente muito chill. Interpretaram temas mais antigos como “The Great Python”, “Book of Silence” e “Saturn”, mas também duas músicas novas: “The Fall of Neophyte” e “The Initiation of Light”. Apesar de problemas técnicos a meio, a banda não se deixou afectar, com uma boa actuação da recente vocalista Sofia, a sua voz segura e etérea combinada perfeitamente com a excelente performance do baixista Nocturnus, a mostrar mais uma vez a sua capacidade de integrar projectos tão diferentes uns dos outros.

Já passava da uma da manhã quando os Martelo Negro fecharam o cartaz e, embora difíceis, os últimos sobreviventes a assistir ainda vibraram com o Black Thrash revivalista da banda. “Mutilação Ritual”, “Inferno Abysmal” foram algumas do início, mais uma nova música apresentada, “Rameira Necromante”. Velocidade máxima e com grande entrega e cumplicidade entre os elementos da banda, “Servos da Cúspide” e “Liturgia de Excrementos”, entre outras, continuaram as hostilidades até terminarem com “Hierofante em chamas”, tocada “em honra da vinda do Papa” contar com a presença de Carina. Embora a banda parecesse algo desapontada com a baixa adesão de pessoal, um fã ainda subiu ao palco para gritar ao microfone antes do encore a que tivemos direito, com a malha “Caronte”.

Um festival que, apesar de bem organizado e com algumas pérolas do underground português, sofreu pela falta de comparência de público, ficando na dúvida se estaria tudo de férias de Páscoa ou se o cartaz seria demasiado ecléctico para alguns. Mesmo assim, esta segunda edição do Morbid Spring Fest teve muito boa música e disposição e esperamos que continue para o ano.

Texto: Inês Torga
Fotos: Andreia Vidal

Fotogaleria completa AQUI

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