Na Moita foi sem censura

Estávamos a ver que nunca mais era sexta, e desta vez não era uma sexta qualquer, mas sim a sexta-feira em que acontecia o primeiro dia do Moita Metal Fest. Esta 14ª edição do festival que reúne o melhor do underground nacional na margem sul contou com especiais novidades, como foi o caso da nova localização e recinto. Depois de mais de 10 anos na Sociedade Filarmónica Estrela Moitense, foi altura de nos mudarmos para o Largo do Pavilhão Municipal de Exposições da Moita. Com uma tenda nova e um espaço de refeições renovado, estava montado o cenário para que este festival passasse ao nível seguinte. Tal como em anos anteriores, o cartaz era maioritariamente composto por bandas portuguesas, mas não faltaram os grandes nomes internacionais, nesta edição representados pelos No Turning Back, Napalm Death e Sodom.

Dia 1

Os Legacy Of Cynthia, de Sintra, tinham como importante (e intimidante) tarefa estrear aquele novo palco e abrir as hostilidades para aquele que seria um fim-de-semana de peso. Traziam na bagagem o espectáculo de som e luzes a que já nos habituaram, desta vez estendido ao chapéu do vocalista Peter Miller. Donos de uma energia muito própria, em parte também devido à performance do vocalista, entregaram-nos todo o groove inerente ao seu mais recente lançamento “Danse Macabre”, trazido a público no final do ano passado. Ainda com pouca gente no recinto, os seus ritmos alternativos em conjunto com as influências mais proggy e tribais que apanhamos na maior parte das faixas, desde “Cabaret” a “Darwinian”, e uma atitude bem-disposta não deixaram de proporcionar um bom treino para os nossos pescocinhos.

A segunda banda a subir ao palco seriam os Prayers of Sanity e trouxeram o seu old school thrash metal desde Faro, para ajudar a aquecer a noite. O trio algarvio revelou-se bastante competente em palco, onde os seus riffs catchy e típico pitch deram espaço para que se iniciassem as primeiras movimentações no mosh pit. Preparam-se para lançar o seu terceiro álbum no próximo dia 14 de Abril, com o título “Face of the Unknown”, e disponibilizaram no mês de Março o vídeo onde revelam a faixa “Someday”, que tivemos o prazer de ouvir ao vivo pela primeira vez.

Dizem que à terceira é de vez e nós confirmamos. Desta feita, não só o registo, mas sobretudo o desempenho dos elementos de Theriomorphic estiveram simplesmente irrepreensíveis. É uma das bandas mais aclamadas do underground português e a cada concerto que vemos menos difícil se torna compreender o porquê. A par de umas quantas outras bandas nacionais, contam com 20 anos de carreira e como têm andado na estrada a nossa expectativa relativamente ao lançamento do seu novo EP “Of Fire And Light” só tem aumentado. As interacções entre os elementos da banda demonstram a segurança e paixão deste quarteto em palco e tivemos mais uma vez a oportunidade de ouvir “The Beast Brigade” e “Absent Light”, que integrará este novo trabalho. O som esteve de feição e um death metal cru, onde as influências dos clássicos do género são mais do que muitas, fez as delícias dos presentes.

A velha guarda, passando a expressão, esteve muito bem representada pelos Crise Total que completaram recentemente 25 anos de carreira. A banda de Sintra trouxe-nos aquela típica atitude inconformada e muito DIY, com direito a um nível considerável de nostalgia, onde não faltaram referências a alguns nomes importantes do underground nacional, como foi o caso de João Ribas. Para além do punk/hardcore bem puxado dos anos 80, ouvimos temas como “Queremos Anarquia” que, caso restasse qualquer dúvida, deixaram bastante claro que o mote não só da banda, mas também do festival, era lançar a desordem.

Como já começa a ser habitual neste tipo de evento, há elementos das bandas que sobem ao palco mais do que uma vez e com os Gwydion não foi excepção. Depois de um curto hiato e da última actuação no Moita Metal Fest de 2014, a banda de viking metal (se é que os podemos limitar a este rótulo) não poderia escolher outro palco para o seu regresso e aproveitaram para nos apresentar dois novos elementos, na voz e na guitarra. Sobretudo a nível da voz o som não facilitou muito o desempenho, mas a verdade é que nenhum dos percalços a que a banda esteve sujeita conseguiu abalar aquele que foi um dos maiores e mais sorridentes mosh pits da Moita, como sabemos que manda a lei no que toca ao folk. A festa fez-se à imagem de vikings e ao som destes Gwydion renovados, onde não faltaram kilts, pinturas de guerra, bebidas de vikings (onde para bom entendedor meia palavra basta) e cornos que substituíram de copos. Skål!

E à sexta banda do primeiro dia, o caos desceu à Moita… e já não arredou pé. Depois da última passagem por terras lusitanas com a Deathcrusher Tour em 2015, não era novidade que os veteranos Napalm Death vinham de Birmingham. O sotaque era realmente britânico, mas a delicadeza deixaram-na toda em casa… e nós agradecemos. Ouve-se a intro de Aphex Predator e rapidamente nos apercebemos de que isto vai ser carne para canhão. Estar perto do pit tornou-se perigoso e como quem vai à guerra dá e leva, a nossa querida fotógrafa Andreia Vidal voltou para casa com um galo de recordação. Embora tenha sido uma javardeira mesmo bonita, e Jesper Liveröd (Nasum) tenha estado à altura como baixista substituto, ainda não conseguimos perdoar a ausência de Shane Embury. Mark “Barney” Greenway esteve irrepreensível na voz e é impossível ficar indiferente aos maniac eyes que este senhor exibe em palco, sempre muito bem acompanhado pelo guitarrista John Cooke. Rezava a lenda que os britânicos são bastante comunicativos durante os seus concertos e nem se esperava outra coisa de uma banda que transporta 40 anos de música e activismo conjunto às costas. Falou-se do papel da religião, do movimento anti-fascista, do medo da diferença e do quão “nonsense é este Brexit”, segundo palavras do próprio Barney, que tão bem nos soube relembrar da importância da música e músicos na sociedade actual. É complicado destacar o que seja de uma performance tão completa e, mesmo sendo uma presença habitual, é impossível não ficar em pulgas com o seu regresso. Ouvimos “The Wolf I Feed”, “Scum”, “Deceiver”, “From Enslavement to Obliteration”, “Suffer The Children” e ainda houve tempo para uma curta viagem a 1996, com a conhecida cover de Dead Kennedys, “Nazi Punks Fuck Off.” Foi uma hora e meia de porradinha (literal) nas orelhas, simplesmente demolidor e posso garantir-vos que ficámos com a bateria de Herrera a ressoar na cabeça durante horas e, falando por mim, ainda não recuperámos a 100%.

Não podemos também deixar de comentar que foi neste concerto que o stage diving se começou a revelar exagerado, principalmente quando afecta de alguma maneira a actuação das bandas.

A festa continuou, com os DJ a tomarem conta da música no recinto, mas nós saímos de fininho e só rezámos para que umas horinhas de sono fossem suficientes para recuperar e nos prepararmos para o segundo (e tão longo) dia do festival.

Dia 2

Neste sábado de peso na Moita festejaram-se aniversários e, mesmo com a sombra do clássico a pairar, o baile fez-se e bem. Com os concertos a começarem às 15h da tarde, era de esperar que o desfile de ressacas tardasse… mas ao contrário do que estávamos à espera, ainda não eram 14h e já encontrávamos malta à espera para entrar e ocupar o seu lugar cativo naquele recinto (nós incluídas).

Os Enblood são uma banda de death metal bastante recente no panorama nacional e não desiludiram de maneira alguma os presentes. Este quarteto formou-se em 2015 em Almada e, como não podia deixar de ser, mostraram-nos o seu single de lançamento “Oblivious Hate.”

Já imaginaram como seria um filho ilegítimo entre os Sabbath e os Zeppelin? Pois bem, foi o que nos mostraram logo de seguida os The Zanibar Aliens com o seu rock’n’roll recheadinho de groove, jazz e blues, que incluiu um registo invejável no baixo, e aproveitando para citar o vocalista, eles bem nos avisaram “que também eram do metal mas gostavam mais de Led Zeppelin.” Confesso que foi uma lufada de ar fresco bastante acertada, mostrando mais uma vez que o Moita Metal Fest ganha sobretudo pelos cartazes ecléticos que apresenta. É acima de tudo agradável perceber que nestes festivais se começam a eliminar barreiras, mais importante do que um rótulo é o feeling.

E desde então a coisa ficou ligeiramente mais séria. Três anos depois de se estrearem no Moita, isto foi quase como um regresso a casa para os lisboetas Burn Damage. Os jovens convidaram-nos para uma valsa e nós não nos fizemos de esquisitos. Bailámos e bem, naquele que se tornou o primeiro pit a sério do segundo dia. Um cartaz com as palavras “Females Growlers Do It Deeper” não deixava margem para dúvidas do que esperar da vocalista Inês Freitas que, como sempre, nos brindou com aqueles guturais cavernosos, saídos directamente de um cantinho do inferno. A setlist baseou-se no seu mais recente lançamento “Age of Vultures” e não faltaram faixas como “Refugee”, “4 Little Pigs” e “Acid Rain.” Foi também com enorme prazer que recebemos uma versão ligeiramente diferente do que sabemos ser Burn Damage, com a sua faixa “Fire Walk With Me.” Aproveitaram para revelar que esta música integrará o segundo álbum da banda, que está já em preparação e nós mal podemos esperar.

Os Fast Eddie Nelson partilharam connosco o quão difícil é lidar com o jet-lag quando se viaja directamente do Barreiro para a Moita. A par dos The Zanibar Aliens foram outro dos outliers deste dia, ao enriquecer ainda mais aquela tarde com o seu rock’n’roll e blues fora da lei, a rebentar pelas costuras de southern vibes. Muito ao estilo da Route 66 e de uma roadtrip com os amigos.

Os gigantes Analepsy fizeram mover as tropas e destruíram toda e qualquer coisa que tenha restado de concertos anteriores, mas dos dois dias. Em constante evolução, estes moços não dão espaço para se lhes apontar seja o que for, a não ser possivelmente a limpeza dos escombros pós-actuação. Mais uma vez contámos com temas do EP Dehumanization by Supremacy e do novo álbum Atrocities from Beyond, lançado já este ano. Assim que se ouvem os primeiros acordes de brutal death metal é só ver a malta a querer partir chão, e temas como “Lethal Injection”, “Vermin Devour” e “Eons in Vacuum” continuam a soar como se fosse a primeira vez que os ouvimos, é surreal. O que não pôde faltar também foi a “Genetic Mutations” e desta vez com a participação de Sérgio Afonso dos Bleeding Display (de quem também já temos algumas saudades).

Os Attick Demons vieram no fundo pôr alguma água na fervura, e ainda bem, porque ainda faltavam muitas horinhas de concertos pela frente. Trouxeram de Almada os seus 20 anos de carreira do que melhor representa o heavy e power metal nacional e o seu mais recente trabalho “Let’s Raise Hell.” Mantivemos uma certa distância do palco (estávamos com sede), mas nem por isso deixámos de apreciar os riffs rasgados das guitarras e a capa usada pelo vocalista. Já com as vias mais hidratadas foi fácil ver o pessoal a dar largas aos seus respectivos ranges vocais, ao tentar acompanhar o registo mais agudo da coisa, o que obviamente ainda nos proporcionou bons momentos e umas valentes risadas.

Os horários continuaram a ser seguidos à risca e chegou a vez de vermos os Primal Attack subir ao palco. Equilibradíssimos entre o thrash e o groove e com o seu “Heartless Oppressor” acabadinho de sair na bagagem, o quinteto lisboeta demonstrou uma vez mais o quão bem este conjunto resulta em palco. Daquelas bandas capazes de agradar a gregos e a troianos sem descurar por um único momento a sua componente técnica. Se ainda não ouviram o álbum, deviam, e aproveito para dizer que foi bonito ouvir o vocalista dizer que era muito bom estar “no festival com mais amigos por metro quadrado” e nós, uma vez mais, confirmamos.

A banda que representou Coimbra nesta edição foram os, já conhecidos do público, Midnight Priest. Ainda que se continuassem a notar algumas falhas de som, foi fácil seguir aquele heavy metal oldschool a que já nos habituaram. Fomos “À Boleia com o Diabo” e como não podia deixar de ser, o público prontamente se dispôs a acompanhar a “Rainha da Magia Negra.”

Infelizmente, ou nem tanto, os Revolution Within subiram ao palco exactamente à mesma hora que acontecia o jogo, mas nem por isso se viu o pit ou o primeiro (e julgo que único) wall of death desfalcado. A banda de Santa Maria da Feira conta também com uma base de fãs bastante fiel e foi o suficiente para se fazer a festa mais uma vez, e ao ritmo do seu thrash metal e de temas do seu mais recente “Annihilation” ainda se levantou bastante poeira.

Finalmente, foi vez de Corpus Christii se estrear no palco daquele que é (por palavras das próprias bandas) um dos maiores festivais underground no nosso país. Estavam em representação directa das trevas neste cartaz e, embora soe contraditório, foi amoroso ouvir ao vivo aquele black metal do mais cru e herege que podemos encontrar por cá. Nocturnus Horrendus sobe ao palco e têm início os rituais, fez-se silêncio no recinto, protagonizou-se um exorcismo conjunto. Tivemos direito não só a corpse paint, mas também à participação de Vulturius, cruzes invertidas e eu posso ainda garantir-vos que vi pelo menos uma bíblia no recinto. Ainda ficamos a pensar como é que aquela tenda não entrou em combustão espontânea, tal a quantidade de infiéis no recinto. Piadas à parte, esta estreia dos Corpus Christii foi, sem sombra de dúvida, um dos pontos mais altos desta edição.

Foi com enorme satisfação que recebemos um dos grandes nomes do hardcore holandês. Os No Turning Back têm perto de 20 anos de carreira e continua a parecer que nem um dia passou por eles desde que se iniciaram nesta vida, apenas com 16 anos. Foi o tudo ou nada dentro daquela tenda, com aspirações ao maior circle pit do evento, numa tentativa que este fosse feito em volta dos quatro postes que suportavam a estrutura. Ainda que ligeiramente descontextualizados depois daquela missa, aquela atitude irreverente e ritmo alucinante tão típico da cena hardcore punk não deixou ninguém indiferente.

Os Heavenwood estão longe de serem considerados estreantes nestas andanças, tendo em conta que já completaram mais de 20 anos de carreira. A banda de Vila Nova de Gaia fez-se desta vez acompanhar, e muito bem, por Miguel Inglês, conhecido vocalista de Equaleft. O estilo de growl de Miguel Inglês, em substituição do vocalista Ernesto Guerra, casou melhor do que esperávamos com os clean vocals do guitarrista Ricardo Dias. Depois de lançarem o álbum “The Tarot of the Bohemians” a banda tem andado na estrada e não podiam deixar faltar neste Moita alguns dos melhores temas deste seu último trabalho, como foi o caso de “The Emperor”, “The Highest Priestess” e “The Juggler”, onde a voz de Miguel Inglês funcionou particularmente bem. Contámos também com temas do primeiro e segundo álbuns e, sinceramente, não havia melhor maneira de (quase) encerrar esta edição do festival.

Chegava outro dos momentos mais esperados deste Moita e depois de um soundcheck aparentemente interminável, remexia-se ainda mais no pouco que sobrava de energia, que depois de 12 horas de música já era pouca. A ressurreição deu-se então ao som de uma das lendas do thrash metal alemão, os Sodom, cujo vocalista Tom Angelripper ainda nos deu o especial prazer de o ver actuar com uma t-shirt da nossa tão querida marca Mosher. Como representantes dos Big Four do panorama alemão, escusado será dizer que toda a gente naquele recinto activou a reserva e ligou o turbo para que se encerrasse em grande a última noite (afinal, mais Moita só para o ano). O circle pit não cessou, voavam sapatos e cerveja, e tanto o crowdsurf como o stage diving foram constantes (para algum desagrado por parte do público). Vejam lá bem, que no meio desta algazarra ainda houve tempo para uma ou duas selfies com a banda em plena actuação, com o público português a tornar-se ainda mais inesquecível. Estes senhores demoraram a dar-se por vencidos e atingiram-nos (mesmo no meio da testa) com mais de uma hora e meia de metal full speed. Prestou-se homenagem ao rei Lemmy Kilmister com uma cover da “Iron Fist” de Motörhead e fizemos uma viagem alucinante pela carreira da banda. Poucas faixas ouvimos do seu mais recente “Decision Day” e ainda bem, aquela gente afinal estava ali para partir tudo ao som dos clássicos. Eram três em palco, mas mais pareciam 20, tal não foi a violência da coisa. Malhas como “The Saw Is The Law”, “Napalm In The Morning”, “Stigmatized”, “Agent Orange” e “Remember the Fallen” fizeram a noite. Citando um amigo meu lá presente: “Foi bonito!”

O mestre de cerimónias, Hugo Andrade dos Switchtense, teve a última palavra depois da destruidora actuação dos Sodom. Agradeceu a presença e apoio de todos e garantiu já a próxima edição deste grande festival, a acontecer em 2018 e a contar com a actuação dos grandes Switchtense. Ficámos sem voz, sobraram-nos senhas e garanto-vos que para o ano voltamos a marcar presença… com a garantia de que nos continuem a dar o domingo para recuperar. Um festival de amigos, para amigos… e antes que fique por dizer “MOITA, CARALH*!” Siga o baile!

Devido a alguns imprevistos técnicos não nos foi possível fotografar todas as bandas do segundo dia do festival, pelo que pedimos desde já desculpa à organização e possíveis bandas lesadas.

Texto: Andreia Teixeira
Fotografias: Andreia Vidal

Galeria Completa AQUI

 

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