Um fim de semana “In Extremis”




O Extreme Metal Attack aconteceu nos Nirvana Studios, nos passados dias 17 e 18 de Março. Embora seja apenas a segunda vez que o evento acontece naquele espaço, esta é já a décima quarta edição deste festival de culto ao Underground. Sim, isso mesmo, há já 14 anos que estas pessoas se mexem para provar que o Underground não só está vivo como também está muito bem de saúde… e estes dois dias prometiam ser duros.

Sexta-feira contámos com um alinhamento completamente nacional, com excepção dos espanhóis Aversio Humanitatis. Vieram de Madrid para abrir hostilidades e trouxeram na bagagem o seu primeiro álbum “Abandonment Ritual” e o seu novo EP “Longing for the Untold” lançado no dia 1 deste mês. Embora fossem a primeira banda a actuar, já se sentia uma aura negra e pesada na sala. O black metal niilista de nuestros hermanos não deixou espaço para grandes interacções e mesmo os aplausos do público foram tímidos, era como se a atmosfera pedisse que ficássemos em silêncio entre músicas.A noite já se previa longa com a actuação de 5 bandas com início marcado para as 22h e numa sexta-feira dedicada ao black metal não falhou a presença dos Morte Incandescente. Já são conhecidos do público português, com 15 anos de carreira com Morte Incandescente e uma lista considerável de projectos paralelos, onde se incluem Irae, Corpus Christii e Decayed. O projecto que junta Nocturnus Horrendus e Vulturius não passa despercebido por ninguém, nas actuações ao vivo fazem-se acompanhar por J. Goat e vêm contar-nos estórias de decadência, profanação e ódio. Trouxeram corpse paint, montaram um cenário digno de ritual e apresentaram-nos o seu quarto e último trabalho “…o Mundo Morreu!

Contam com raras apresentações em público no currículo, esta não é a primeira vez que fazem arte do cartaz deste festival e lá chegou a vez dos Inner Helvete ocuparem o palco. Formados em 1996, contam com um álbum lançado em 2002 e tantos outros demos e splits, sendo o último um esforço conjunto com Silva Nigra, Sardonic Witchery e Irae. Trouxeram ao palco sangue e uma abordagem simples ao black metal, onde ficaram evidentes as numerosas influências da banda, desde o death ao folk.

Uma das grandes surpresas foi poder contar com Infernüs neste cartaz, um projecto de Nihilum e Blaspher, que dividem também a sua atenção entre outros projectos, e conta agora com a participação de mais três músicos A., V. e J. Goat. Bastante activos entre 1999 e 2008, deixaram o underground na escuridão total relativamente ao seu paradeiro depois do lançamento do seu último demo “Misantropia e Morte.” Tivemos o prazer de assistir ao concerto de regresso, num palco que incluiu crânios, velas, sacrifícios malignos e uma grande cruz invertida entre a banda e o público… e tudo isto porque a banda se prepara para lançar em breve um novo álbum com material de 2009 e 2015. Aguardamos (im)pacientemente.

Por volta das duas da manhã os Decayed subiam ao palco, e quem mais para além destes veteranos, não só do oldschool black metal, mas também do underground português, encaixaria melhor como banda de encerramento neste primeiro dia de festival? Exacto, ninguém. É reconfortante pensar que podemos ver ao vivo, e sem sinais de abrandamento, uma banda com 27 anos de existência. Em palco continuam a ser uma referência e o seu último álbum “The Burning Of Heaven” não podia deixar de fazer parte do alinhamento.

Ao segundo dia, o ambiente frio e sufocante foi dando lugar à cerveja (às vezes mais entornada do que bebida) e ao headbanging embalado pelo thrash e speed metal, com direito àquele crowdsurfing ocasional.

Decayed

Os Systemik Violence são um projecto recente e, como para bom entendedor meia palavra basta, “Punk is protest!” Estrearam-se o ano passado, com o lançamento do demo “Fuck As Punk” pela Helldprod, e andam na estrada desde então. A ideia é deixarem tudo e todos revoltados, mas acima de tudo desconfortáveis… e conseguem! Apresentam-se de máscara porque acham que não são os músicos, mas sim a música que faz a banda. O vocalista (que passou mais de metade do tempo no meio do público) é, sem dúvida, um dos elementos-chave nos concertos… e a nossa fotógrafa Andreia Vidal que o diga, depois de lhe calhar a maior escarradela do festival. Atitude, rapidez e um ou outro arroto ocasional é o que entregam, e dizem faltar a todos estes “pussymetals” que “só vão para os festivais mostrar a t-shirt daquela banda que ninguém conhece.

Num dia que contaria com mais cinco bandas e todas elas internacionais, as hordes no Nirvana Studios puderam aquecer ao som do speed e thrash metal dos nossos vizinhos Skull Bastards. Tudo começou em 2012, na cave de um dos elementos, sob influências de bandas como Venom, Exodus e Destruction. Como já tão bem nos habituaram no que toca a bandas espanholas, tivemos direito a uma sessão de porradinha nas orelhas (e não só!) mesmo à maneira.

Sábado foi o dia de maior afluência e, embora os concertos tenham começado mais cedo, a verdade é que nos perdemos relativamente ao tempo de actuação de cada uma das bandas. Um festival que continua a ganhar reconhecimento e destaque de ano para ano e com razão. Houve tempo e espaço para tudo, mas sobretudo para o convívio e o bom ambiente.

Assim que vimos chegar uma carrinha e, seguidamente, os ocupantes que ela transportava, soubemos de quem se tratava. Com um ar que não enganava ninguém chegavam os alemães Dehuman Reign. Foi a estreia da banda em terras lusitanas e segundo os próprios “a primeira vez que tocaram tão longe de casa”, mais propriamente de Berlim. Foram os exóticos do Extreme Metal Attack, uma vez que vieram em representação do death metal e bem! Apresentaram-nos o seu álbum de estreia “Ascending From Below” e foi de certa forma engraçado ver um vocalista daqueles com uma atitude tão querida perante o público. No fundo são estas pequenas coisas que marcam a diferença.

Aversio Humanitatis

Os Chainsaw chegaram em representação dos Países Baixos, cheios de garra e a garantirem a todos os que se deslocaram a Barcarena naquele dia uma boa dose de carnificina com um heavy metal à la oldschool à mistura. Já treinados com uma carreira mais do que atribulada, pelo menos no que toca em acidentes que envolveram os elementos da banda, guiaram-nos numa intensa viagem pelos seus três álbuns e não pôde faltar o primeiro single “Chainsaw Is the Law”, que data da “altura em que a banda achava que tocava bem” segundo o bem-disposto Aike. Com um frontman destes e os restantes elementos a preencherem tão bem o palco, foi impossível não darmos também um pezinho de dança.

Já acusávamos algum cansaço, mas os Slaughtered Priest vinham da Grécia com tudo menos a tragédia (tinha mesmo que fazer esta graça) e a festa continuou. Com o álbum “Iron Chains and Metal Blades” acabadinhos de sair, não deixaram ninguém indiferente. Mais uma prova de que há bandas a fazerem um excelente trabalho no que toca à mistura de elementos de thrash, speed e black metal. Ghoul e Ungod são personagens bastante conhecidas no underground grego e certamente que conseguiram conquistar um lugarzinho no coração (ou no que pouco resta dele) dos fãs do underground lusitano.

Deathhammer

Finalmente, já a noite não ia para cedo, víamos actuar uma das bandas mais esperadas. Queríamos muito ver os noruegueses Deathhamer e perceber quão boa seria a interpretação do seu último “Evil Power” ao vivo. Pouco faltou para Sergeant Salsten e Sadomancer conseguirem convocar Tormentor em palco (sim, aquele demónio que aparece nas capas de álbum da banda). Riffs e voz a um ritmo alucinante não deixaram sobrar nem vivalma nem cerveja entre aquelas quatro paredes. Um projecto que foi criado por coincidência e nós agradecemos, muito! De referir o admirável range vocal de Sergeant Salsten e se ainda não conhecem a banda, bom… vão ouvir.

Dois dias de muito boa música e bandas para todos os gostos. Como já disse, um festival que merece toda a atenção que tem e mais! Quanto aos underground aficionados: se nunca foram, experimentem e garanto que não se vão arrepender. Um grande obrigado à Helldprod por nos permitir fazer parte deste evento e contribuir para o CAOS! Queremos também agradecer à Metal Horde Zine por ter disponibilizado durante o festival um resumo de entrevistas feitas a todas as bandas participantes, que em muito contribuiu para a escrita desta reportagem.

E já agora (se me permitem) ponham-se a jeito, porque a maior parte das bandas portuguesas supramencionadas têm concertos, álbuns e afins agendados para os próximos tempos… se é que me entendem!

Texto: Andreia Teixeira
Fotos: Andreia Vidal

Galeria de fotos AQUI

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