Évora Metal Fest

Pelo sexto ano consecutivo, a Capital Alentejana acolheu as sonoridades mais pesadas durante um frio fim de semana. Tal como na edição de 2016, o Festival parece ter abandonado definitivamente o centro da cidade, em troca de um horário mais alargado, possíveis melhorias técnicas e a possibilidade de providenciar acampamento aos festivaleiros.

Poucos minutos após a hora estipulada, os locais ThrashWall estrearam o palco este ano. Como o nome não engana, o que o quinteto pratica é Thrash, de predominada influência 80’s, ainda que com alguns toque de “modernidade”. Algumas arestas a limar da execução e na própria produção (a banda teve um dos piores sons de guitarra ritmo que nos lembramos de ter ouvido) e não só as musicas em nome próprio, como a própria cover dos Brasileiros Sepultura (“Inner Self”) crescerão, como os dois últimos temas demonstraram.

Nome relativamente novo e desconhecido, os britânicos Ghold foram uma agradável surpresa. Embora o som demasiado distorcido do baixo ao início antevê-se uma prestação mais próxima do Noise do que do Stoner Rock, o facto de a banda conseguir aliar os riffs opressivos, a um progressivo variado q.b. para manter o ouvinte atento, mostraram que nem todas as propostas do género têm que soar aos Sunno)) a fazerem covers de Melvins. O Trio que tinha actuado no Porto na noite de Quinta, apostou num set de músicas novas (o álbum sai a 5 de Maio pela Ritual Productions) das quais o destaque vai para “Nothing Dreamt, Nothing Aimed”.

Infelizmente os Stone Dead sofreram um pouco com o alinhamento: O proto rock “light” da banda de Alcobaça acabou por soar demasiado pálido e batido.

Crisix

Duplo regresso ao Thrash, pelos acordes dos algarvios Prayers Of Sanity. O agora trio recupera actualmente alguma da vitalidade de outrora e tem sido nos últimos tempos presença regular nos palcos nacionais. Enquanto aguardamos o sucessor de “Confrontations”, tivemos direito a um tema novo “Past, Present, None”, num set que se tornaria mais interessante se mais curto.

E se os presentes já tinham tratado de combater o frio, ora refugiando-se debaixo dos aquecedores a gás, ora no “mosh” ao som dos Prayers Of Sanity, a descarga energética dos Espanhóis Crisix quase que seria suficiente para aquecer a gélida tenda. Autênticos “showmen”, tanto no profissionalismo da execução, como pela interacção com o público (o guitarrista B. B. Plaza trocou à segunda música o palco pelo “mosh-pit”). Relembramos que a banda foi a vencedora da Final da Wacken Metal Battle em 2009 e já teve álbuns masterizados pelos srs Erik Rutan e Jens Borgen. Ainda que o ADN dos cinco músicos seja mais o  Thrash New York (com direito a um cheirinho de “Caught In A Mosh” de Anthrax no set-list), a costela “Crossover” está presente na abordagem mais moderna ao género e só faltou mesmo uma tenda mais cheia para fechar em pleno a primeira noite.

No sábado, um alinhamento de bandas mais ecléctico, composto pelos melhores representantes nacionais dos diferentes sub géneros do Metal, resultou em cheio numa maior afluência de público .A chuva do final da noite de sexta de lugar a um Sol  morno e às 17:00 os My Master The Sun começaram a debitar o seu Sludge, gritando a plenos pulmões. Confiante em palco, o quarteto descarregou crítica a uma sociedade alienada (destaque para o quase Drone de “TV”, apresentado de forma a não causar equívocos: “de Televisão”).

Num tom mais negro, o Duo Portuense Névoa (convertido em quarteto ao vivo) acabou por ter pouco impacto no público. Ainda que o “Atmospheric Black Metal” da banda tenha cada vez mais uma base de Riffs a apostar nas dissonâncias mais “maléficas”, certos momentos acabam por parecer forçados, numa tentativa de ir aos extremos do peso/”easy listening” . Limadas essas arestas, temos banda a seguir atentamente.

Uma expressão similar poderia servir para os Wells Valley: as partes mais “post”, ainda que bem encaixadas no peso Doom/ Sludge do trio lisboeta, acabam por parecer acessório dispensável. Como já tínhamos referido aquando do Under The Doom, é sobretudo nos riffs pesados que a banda se torna mais interessante. A terminar, a cover de Pink FloydSet The Controls For the Heart of the Sun” e a sensação que não nos importaríamos nada de ouvir a banda por mais 20 minutos.

Filli Nigrantium Infernalium

Curiosidade acrescida para ver outros “filhos da terra”, Awaiting The Vultures, após a agradável surpresa que foi o autointitulado álbum de estreia.  Além de alguma timidez de palco por parte do novo line-up (só o baterista Xinês se mantém), os três novos temas apresentados não ficam atrás dos antigos, ainda que a ausência da terceira guitarra se sinta em “Sunspot Cycle” e “Fifteen Doors to Nowhere”. O “Post Metal”  do quarteto é cada vez mais ecléctico, com crescendos e passagens extremamente bem conseguidas e o próprio carácter instrumental do quinteto joga em seu favor: não prendendo demasiado a banda a um estilo nem parecendo uma “salada de frutas” mal conseguida.

Os Alemães Contradiction têm sido ao longo dos últimos anos uma presença assídua nos palcos nacionais. Ainda que muitas vezes considerados como “uma banda de Thrash” alemão, a verdade é que músicas como “Icurseuall”, “Old Demon” ou “Death is Now”, não se esgotam nesse rótulo. A banda não nega a sua raiz: muito pelo contrário, nos momentos mais “tradicionais”, há excelentes riffs e não simples “fillers”, mas é na capacidade de por vezes vestirem uma faceta mais moderna e obterem um resultado homogéneo, que reside a própria identidade dos Contradiction.

E é na identidade que reside o misto de culto/repúdio por aquilo que os Fillii Nigrantium Infernalium representam: únicos tanto em presença como em musicalidade, algures entre o triunvirato Venom/ Bathory/ Celtic Frost e o Heavy Metal dos Judas Priest.  Com um alinhamento que se estendeu ao longo dos  25 anos da banda e uma prestação de alto-nível (ainda que apresentando-se como trio), é difícil destacar pontos altos, tanto em termos de músicas (“Abadia do Fogo Negro”, “Morte Geométrica”, “Rancor”, “NecroRock n Roll”, “Sacra Morte”,…) como em termos das tiradas satíricas de Belathauzer. Não é para todos. A fechar, o saudoso “Inverno, Trono Inverno”.

Ghold

Activos há 20 anos, os Holocausto Canibal são um dos porta-estandartes do Brutal Death Metal/ Grindcore. E caso uma breve olhada pela biografia da banda contando o número de lançamentos e digressões internacionais, não o torne claro, bastará presenciar um concerto do colectivo Portuense para o constatar. Ainda que o line-up ao vivo sofra diversas mutações, o nível de profissionalismo está sempre lá. Sem balões, nem cofettis, o quinteto mostrou em Évora que o género pode produzir clássicos: temas como “Antropofagia Auto-Infligida”, “Necropsia Cadaverina” e “Violada pela Moto-Serra” (a fechar) ou a cover de MorticianZombie Apocalypse” confirma-mo.

A fechar a edição deste ano do Évora Metal Fest, outros “filhos da terra”: os gigantes Process Of Guilt. A arrancar com os três “movements” de “Liar”, o quarteto teve direito a um dos melhores sons do Festival.   “Hoax” do próximo álbum a terminar uma actuação sem pontos “mornos”.

Algumas notas menos positivas: a ausência de bilhetes físicos (apenas as pulseiras de acesso) ou de “flyers” com o alinhamento das bandas e o som demasiado alto (chegando a tornar-se desconfortável por vezes). Apostando para edições futuras no mesmo espaço, um WC mais perto da tenda e o próprio “After Hours” no local (invés de numa discoteca no centro da Cidade), seriam pontos a melhorar. O melhor a reter desta edição, será acima de tudo boas apostas em termos de cartaz, um bom balanço entre ecletismo, novos valores e os nomes já “consagrados”. Lá estaremos!

Texto e Fotos: Sethlam Waltheer

Galeria completa AQUI

 

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