Estivemos pelo ecléctico Under The Doom [Report + Galeria]

Já na quarta edição, o Under The Doom tem feito as delícias dos fans das sonoridades mais sorumbáticas e arrastadas do Doom (em todas as suas variantes), especialmente para os que vêem com bons olhos as piscadelas que o género dá ora a sonoridades mais ambientais, ora a paisagens mais agrestes.

Ainda que o destaque desta edição fosse o regresso às raízes mais Black Metal dos suíços Samael, numa tour baseada em celebrar os 20 anos de “Ceremony of Oposites” (com passagem obrigatória por outros momentos mais consensuais da carreira da banda), o regresso a Portugal de nomes como Ahab  e Draconian assim como  a estreia em solo nacional dos Shape Of Despair, afiguravam-se como excelentes propostas num cartaz cada vez mais ecléctico.

Na noite de Quinta, o“slot” de abertura ficou a cargo dos nacionais Son of Cain. O duo composto por Hugo Conim (Dawnrider,…) e Nocturnus Horrendus (Corpus Christi,…), que já se tinha cruzado na última encarnação dos Subcaos, aposta aqui num Southern Rock carregado de peso, com bastantes influencias mais bluesy. A ainda que em disco a prestação vocal seja um gosto adquirido, ao vivo um registo mais Glenn Danzig dá mais músculo ao duo.

Também Nacionais e mais fortemente influenciados pelo imaginário das “Road Trips” por longas rectas, os Earth Drive foram a proposta mais “off” desta quarta edição. Ainda que tecnicamente competentes, ainda falta à banda à-vontade de palco e acharem a sua identidade.

Já da prestação dos Wells Valley ficamos exactamente com a ideia oposta: quando reduzem a coisa ao “riff” e não à exploração sónica, o trio está em casa, imprimindo um cunho bastante pessoal. A conferir no EP “The Orphic”, a ser lançado por estes dias.

Process of Guilt16

Dos Process Of Guilt pouco há a dizer que não tenha sido já dito, a banda de origens alentejana tem-se afirmado como uma das propostas mais interessantes nascida no espectro do Death/ Doom e que actualmente desafia a classificação mais específica que acompanha um “post” algo. E se nem todas as bandas conseguem transportar para os palcos o ambiente claustrofóbico e o gigante peso que as suas composições têm em disco, os Process of Guilt fazem-no com mestria e aparente facilidade. Com um som (e uma prestação) irrepreensível, o destaque vai para a secção rítmica, sempre um fio condutor no qual as guitarras e a voz são quase apenas apontamentos. Entre a “costela industrial” dos Movimentos de “Liar” (a abrir) e o tema-título de “Faemin”, os presentes ainda tiveram direito a dois temas a incluir no próximo longa duração (“Black Earth” ): “Feral Ground” e “Hoax” a fechar.

A segunda noite de “Under The Doom” começou com a aposta dos Woebegone Obscured num Death/Doom mais “tradicional”. Pouco conhecidos por cá, os Dinamarqueses cumpriram bem o seu papel de abertura para uma sala já bem composta e fica o interesse em explorar mais a discografia do quarteto.

Alguma curiosidade para ver como é que o som iria tratar a aposta dos “LOBO” na utilização de duas baterias em palco. Foi contudo um dos amplificadores de guitarra a dar problemas, nada que a veia mais atmosférica da banda não conseguisse  menorizar. Os ambientes repetitivos e quase hipnóticos como um “crescendo” que nunca atinge exactamente o zénite acabam por funcionar bem ao vivo, mas é quando a banda coloca um travão na longa exploração atmosférica que a mesma ganha acrescido interesse. Aguardamos então que esta segunda encarnação da banda nos apresente música nova e um novo lançamento.

Woebegone Obscured24

Ainda que em disco os Germânicos “Ahab” se tornem um pouco repetitivos, uma excelente escolha de alinhamento (destaque para “Deliverance”) resultou a favor da banda. É de facto curioso como a banda consegue recriar o ambiente pesado e selvagem que nos ressoa das leituras de Melville. Ainda que um set curto em número (4 musicas, ou isto não fosse quase “Funeral Doom”), o quarteto assinou uma das melhores prestações dos três dias.

Não seria propriamente fácil aos Draconian superar ou mesmo igualar a descarga emocional dos germânicos, até porque a discografia da banda tem suficientes “altos e baixos” para que seja fácil cometer um “tiro no pé” em termos de alinhamento. Quiçá a presença do baixista original dos suecos tenha canalizado a escolha de temas para a melhor fase da banda (os primeiros álbuns) e temas como “Daylight Misery” e “Heaven Laid in Tears” quase que desculpam os momentos mais “Gothic Cliché”. E curiosamente os temas do mais recente álbum ( “Sovran”) como “Pale Tortured Blue” soam melhor ao vivo que em disco. Ficou a faltar o encore, culpa aparente de uma corda de guitarra.

Wells Valley21

A última noite começou com uma substituição já anunciada: a troca de “A Tree Of Signs” (impossibilitados de actuar devido a problemas de saúde) pelos “OCerco”. O Trio tem no EP “A Desolação” (2016).Um projecto de Black Metal (ou post se preferirem) que  despensa o baixo. Consome-se bem em pequenas doses.

Os Belgas “Marche Funèbre” fizeram “bis” no Under The Doom (a banda já tinha estado presente na edição de 2015) e ainda que  só tenha lançado o Single “Lost” desde então,  souberam jogar bem com o alinhamento, alternando entre temas mais longos e  (5 minutos é um tema curto para os padrões do Death/ Doom). Destaque para “As in Autumn” e “The Dark Corner”, momentos em que podemos verificar que um dos pontos fortes do colectivo é a excelente capacidade de tirar partido das diferentes vozes (só o baterista não cantou!).

É algo estranho ver ao vivo uma banda de Funeral Doom (no sentido mais tradicional do termo), especialmente entre bandas com uma maior variedade de “tempo”. Tecnicamente perto da perfeição, os Shape of Despair  justificaram perfeitamente uma certa áurea de “culto” que tem acompanhado a banda ao longo destes 18 anos. A voz sublime de Natalie Koskinen, usada mais como um instrumento acentua a melancolia das composições dos Finlandeses e o ambiente de quase trevas de todo o concerto acentua a ideia que os Shape of Despair são uma banda para ouvir e não para ver.

Samael60

A curiosidade para assistir à rendição na integra do seminal “Ceremony Of Opposites” sentia-se no ar, ainda mais naqueles que tiveram a oportunidade de ver Samael na altura do lançamento . Ainda que os motivos destas “Tours Celebrativas” possam ser questionáveis, a verdade é que no caso dos Suíços, dadas as alterações estilísticas (e de formação) que a banda sofreu, acaba por fazer mais sentido um revisitar do passado em nome próprio do que a alteração de “clássicos” de forma a não parecerem deslocados junto de outras e mais modernas composições da banda. Embora não tenha sido um regresso a outrora “puro” como alguns gostariam (teria sido curioso voltar a ver Xy totalmente dedicado à bateria), o facto é que as influências Industriais veia marcial (leia-se Laibach) subtilmente incorporadas nos temas, não só não destroem a aura do disco de 1994 como nos fazem pensar que os Samael de 2016 não estão assim tão diferentes na sua essência. E para além da rendição na íntegra do clássico álbum, os presentes ainda tiveram direito a uma amostra de (praticamente) todas as faces dos Samael ao longo dos anos:”Jupiterian Vibe”, “My Saviour”, “Into The Petagram” (anunciada como “the heaviest song ever!”) e “Marching on” a fechar. Pelo meio um tema novo “Rite of Renewal”, perfeitamente integrado no resto do set. Ainda que ver os intermináveis pulos de Mas e  Xy dedicado ao kit de bateria  deixem mais saudades do que  a marca electro-industrial do quarteto (convém lembrar que a mesma já é tanto essência da banda como os seus obscuros inícios), a efusividade do público mostrava bem que os Samael tiveram à altura do desafio.

Mais uma vez a Notredame Productions está de parabéns pelo ecléctico cartaz e ainda que o palco do RCA tenha parecido nalguns momentos pequeno, a qualidade do som (sem grandes momentos negativos a apontar) e condições gerais do espaço fazem-nos desejar que o Under The Doom se estenda por um longo numero de edições.

Podem ver toda a galeria aqui

Texto e Fotos: Sethlam Waltheer

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