Raio-XIS visita em pormenor – Projecto Sem Nome

Nada como regressar a rubricas que estão paradas a muito tempo, desta vez rumamos até ao Porto para descortinar a banda de rock alternativo os Projecto Sem Nome

O nosso especial agradecimento ao sempre disponível André Matos da Raising Legends por ter servido de intermediário especial.

13823443_1389921884356230_1318507465_nQual o vosso percurso musical?

– Dos musicais de catequese com voz cristalina até à sala de ensaio nº “319” do centro comercial stop.

– Dos mantras com bateria pausada à sala de  ensaio nº “319” do centro comercial stop.

– De uma outra sala de ensaio do centro comercial stop  com o pladur a vibrar ao som de  metal e rock pesado para a sala de ensaio nº319 do ominipresente centro comercial stop.

Três perspectivas, quatro elementos, um único destino (poderia ser as berlengas, mas não era a mesma coisa).

Tudo começou pelo desejo de dar voz aos poemas que entretanto fui compilando para o livro de poemas “Entulho”.  Assim, o estratega e baterista Rui desafiou o veterano guitarrista das “lides stopianas” para se juntar a nós e abrilhantar o momento musical no lançamento do “Entulho”.  Só tivemos que revestir os poemas e três melodias já trauteadas por mim com uma sonoridade mais rock, pois na altura (2012) assim fazia mais sentido(na verdade, ainda faz).
Sob o nome “Projecto Sem Nome”, sem desacordo ortográfico, o que seria uma apresentação única acabou por se tornar em rotina de ensaios e criação. E fomos evoluindo, de projecto a banda, de conhecidos a amigos, de trio para quarteto com a entrada do baixista Eugénio. Todo esse percurso é audível  no nosso álbum “Bulas para dedos e coração”.

Como caracterizam o vosso projecto?

Numa tirada do género “paz para o mundo e abaixo os herbicidas”: rock alternativo sem pudor ou tabus. Resta acrescentar que se nos apetecer trilhar outros territórios não pedimos licença a ninguém. A experimentar é que nos deixámos levar.

Quais as vossas referências no mundo da música?

Eu sou a esponja. Absorvo o que conheço e o que até nem conhecia de todo: folclore, variações, pop e indie, passando pelo kuduru. O Paulo e o Eugénio são fãs de prog, de música dita “da pesada” dos anos 80/90. O Rui aprecia mais bandas sonoras e cenas cósmicas.  Se fôssemos a roda alimentar estaríamos bem oleados.

Como artistas o que vos encanta no mundo e se pudessem mudar a mentalidade das pessoas com a vossa música o que gostariam de mudar?

O testemunho da mensagem passa pelo poder do silêncio e do som feito palavra. Em relação à última, tendo consciência que as nossas letras são bastante herméticas, há porém nelas ecos de muita coisa que nos toca e que é comum a todos os comuns como nós. Fé ou a sua ausência, amor ou solidão, alegria ou negrume. Tudo tem o seu contraponto.  Em permanente “iô iô” de emoções a nossa música acaba, no limite, por ser o reflexo do que vivemos dentro da banda, no trabalho, a caminho de casa….

Garantidamente, somos moldados por todas essas variáveis, mas será que a nossa música tem o poder de transfigurar as pessoas? Não sabemos. Na verdade, não temos um cariz interventivo, tão pouco panfletário.

Para quem cria e partilha, intuir reacções é sempre algo arriscado e até o exercício de manipulação de emoções pode ser visto como pernicioso. Encanta-nos a multiplicidade de percepções. Na vida, assim como no mundo, nada é estanque. O que hoje somos, amanhã talvez seremos.

Por agora, a nossa única pretensão é continuar a criar música que acima de tudo seja do nosso agrado, sem corantes, nem concessões. No fundo, a nossa música é um acto de egoísmo que certamente não será condenável.

Local onde gostariam de tocar ao vivo? E com quem?

Em todos os locais que nos respeitem como músicos e pessoas. O mesmo será válido para os parceiros de palco. Só assim faz sentido e se houver a tal “química” entre bandas tanto melhor será o namoro artístico.

O que acham que seria necessário mudar em Portugal quanto ao apoio que existe aos novos projectos e novas bandas?

Será que é preciso assim tanto mudar? Nunca houve tantos festivais, do mais alternativo ao mais abrangente, como actualmente. Há cada vez mais meios de comunicação e divulgação de bandas, mais espaços. Tudo está à distância de uma tecla. Temos pessoas a fazer excelentes trabalhos, como por exemplo, o nosso produtor André Matos com a sua Raising Legends Records. Agora quem faz música também tem de ser exigente com o que faz e com os outros.

Viver da arte em Portugal, seja ela qual for, não é algo fácil. Como conseguem conciliar a banda e os integrantes cidadãos comuns?

Para nós a música não é uma profissão, nunca foi esse o intuito, mas a forma como nos dedicamos é como se de um trabalho se tratasse.

É preciso empenho, ter os pés na terra mas não perder a capacidade de sonhar. Desde que iniciamos esta aventura que há funções definidas, prazos e objectivos. Logo, sim é fácil gerir essas duas áreas. A música faz parte da nossa vida, mas não é a nossa vida.

Somos pais, somos filhos, temos animais de estimação, contas da luz e água para pagar, vizinhos de baixo que reclamam do barulho da velha máquina de lavar a roupa.

Se não podemos ensaiar durante umas semanas porque um dos elementos está a fazer uma formação e o outro está a criar uma empresa, não se ensaia. Se não se pode ensaiar porque o filho está doente, é compreensível. Compensa-se noutra ocasião. Adaptação talvez seja a palavra chave da nossa orgânica enquanto banda.

Que conselhos dariam a quem esta agora a ingressar no difícil mundo da música?

Não há fórmulas exactas, há pessoas e relações que se estabelecem entre as mesmas. E depois há egos e legos. Tudo é um desafio, se for fácil demais talvez não seja o caminho certo.

Consideram que hoje em dia ainda persiste a desconsideração que muitos tinham pelas bandas portuguesas apenas e só por serem de Portugal (um país desvalorizado em várias esferas), ou trata-se já de um estereótipo ultrapassado e sentem que são bem recebidos e aclamados nos quatro cantos do mundo?

Por cá, valoriza-se a música no seu estado mais puro, sem rótulos, nem bandeiras. Ou se aprecia ou passa-se bem sem… Temos consciência que se quisermos ter projecção além fronteiras, cantar em português poderá ser entrave, mas depois o exemplo peculiar dos Sigur Rós vem à nossa memória.

Por outro lado, aqui no burgo sofreu-se de um complexo qualquer em que o que é feito lá fora é sempre melhor do que o “produto caseiro”. É algo cultural, está no nosso sangue invejar o bronzeado e a sopa da vizinha. Felizmente, temos vindo (ainda assim o gerúndio) a verificar uma mudança de atitudes em relação a isso.

Projectos para o futuro?

Editar e apresentar o nosso álbum “Bulas para dedos e coração” e que este chegue a algumas pessoas que o compreendam, quem sabe até às Ilhas Desertas.

Por último descrevam-se numa única palavra

Livres.

Cristóvão Siano

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