Santa Maria Summer Fest, o festival de Música Extrema anti-crise

12936553_572776806232090_2045918917284247214_nPelo sétimo ano, a cidade de Beja foi palco do Santa Maria Summer Fest, o festival de Música (mais ou menos) Extrema anti-crise. Numa nova localização (Parque de Merendas), a edição deste ano tinha nos Rotting Christ o seu ponto forte, colocando de parte eventuais polémicas acerca de algumas escolhas de cartaz.

DAY I

À chegada ao novo recinto, somos presenteados com um booklet a cores com informações sobre as bandas, pequenas entrevistas aos “cabeças de cartaz”, o alinhamento previsto para os dois palcos durante os três dias do Festival e ainda recomendações sobre o que fazer nas “horas mortas”, assim como referencias aos parceiros da Organização.

Tendo perdido a actuação dos Hexecutor, o quase Proto-Heavy Metal de inspiração/ recriação NWOBHM (pensem em “Running Free” de Maiden, temática lírica e tudo) dos britânicos Amulet foi o nosso primeiro contacto com um recinto ainda algo despido em termos de público.

Bem mais interessante, o Doom dos Caronte. O quarteto italiano não inventa a roda, mas o seu lado mais Blues é bem encaixado nas partes mais ortodoxas. Sim, porque as guitarras de Tony Bone bebem mais da escola Saint Vitus do que de Kyuss (ainda que as influências de QOSA fossem dispensáveis), e a variação vocal (entre os gritos quase “Hardcore” e os vocais mais cantados são bons argumentos para a construção de uma identidade de banda mais vincada. Porque os Caronte podem tornar-se (a par dos Procession) um dos mais bem guardados segredos do Underground Doom e teria sido interessante vê-los numa posição mais elevada no cartaz.

Os Ironsword eram uma das bandas mais aguardadas e isso notou-se com a enchente frente ao palco. Tann e companhia não desiludiram, dando um excelente concerto em que as atenções vão para o baterista João Monteiro, tanto pela prestação como pela boa disposição demonstrada ao logo do set-list. Cada vez mais presentes nos palcos nacionais e com “None But The Brave” ainda fresco, o trio conseguiu numa curta actuação conquistar os presentes.

Recorrendo a medleys de Black Sabbath como interlúdio, os Forgotten Tomb mantiveram o registo sonoro no Doom, ainda que a abordagem dos italianos assente mais no Death e no Black Metal. Entre os temas mais recentes de “Hurt Yourself and the Ones You Love”, o destaque para “Daylight Obsession” do álbum de 2003 “Springtime Depression”. Até a falha na iluminação dos stands durante a parte final da actuação contribui-o para deixar no ar um sentimento de desolação que a música dos italianos bem recria.

Primeiro concerto que assistimos no Palco “Forest” (com entrada gratuita) foi o dos Punks Ventas De Exterko. Uma prestação energética, competente q.b. que colocou os presentes a mexerem-se.

Acompanhados de Burbon e Vinho Tinto, os Harakiri For The Sky mostraram que até uma Telecaster é capaz de debitar cadências lúgubres. O “post qualquer-coisa-entre-o-Black-Metal-e-os-Portished” do duo Austríaco (transformado em quinteto ao vivo) cria excelentes ambiências e melodias, ainda que a banda pudesse beneficiar de uma maior variedade vocal. Com o álbum “III: Trauma” prestes a ser lançado (“Calling  The Rain” é um tema brutal, só é pena o título já pertencer aos Atrocity) , só faltou um melhor som para que tivesse sido um dos concertos do festival.

É outro o  Black Metal que os italianos Extirpation respiram. Mais próximos de Sodom do que de Burzum, o quarteto italiano tentou, mas não conseguiu deixar de transparecer alguma “verdura” na sua abordagem ao “Black/ Thrash”.

A fecharem a noite no palco principal, os Mata-Ratos fizeram a festa. Sempre em grande forma, numa actuação sem momentos mortos. Não há muito a dizer sobre os concertos de Mata-Ratos: iguais a si mesmo, são uma instituição, e poucos são os que nãos se rendem aos clássicos Punk de Miguel Newton e Cia.

Para o fim, no palco “Forest” e em substituição dos Vizir, tempo ainda para o Metal/ Punk dos Roadscum, projecto que integra dois músicos de expetros aparentemente diferentes, Tiago Steelbringer (Midnight Priest/ Inquisitor) e J. Goat (Infra/ Alchemist/ etc…).

Galeria dia I aqui

DAY II

Mais uma vez, não conseguimos apanhar a actuação de Paulo Colaço e já apanhamos o final dos M.I.L.F., que nos pareceram mais confiantes em palco do que na sua actuação em Barroselas.

Tempo ainda para participarmos no “Blast Beat contest” (e perdermos miseravelmente) antes do pequeno “baile” no SMSF, versão “Folk”, cortesia dos Espanhóis Celtibeerian. É sempre agradável ver uma banda com excelentes instrumentistas (destaque para a violinista Patri e o multi-instrumentalista Dagda) e que tem mais em comum com os Skyclad que com os nórdicos todos.

Falhámos a actuação de Animalesco, o método e regressámos ao SMSF a tempo de sentir a descarga Grindcore dos Cripple Bastards. É acima de tudo de respeitar a energia e entrega dos italianos que andam nisto desde 1988. Infelizmente a banda sofreu um pouco com o som, com a guitarra demasiado baixa. Pormenores que em nada perturbaram nem a banda nem os “circle pits” na frente do palco.

Outra instituição, desta feita do Death Metal Holandês, os Sinister sempre foram um bocado postos de lado após um auspicioso início na década de 90. Em boa verdade, a banda teve altos e baixos, tanto em termos criativos como em termos de performances. Mas os anos ajudam, e actualmente não só os Holandeses atravessam uma excelente forma ao vivo, como sabem escolher os “highlights” (destaque para  a brutalidade de “The Science of Prophecy”) de uma discografia que já vai longa e estiveram particularmente inspirados (e bem dispostos, com direito a foto do público)  na sua actuação no SMSF.

Optámos por não ver a prestação dos Portuenses Örök no Palco “Forest” e prepararmos-nos mentalmente para Bizarra Locomotiva. Infelizmente nem tudo correu de feição: um longo atraso, os constantes problemas de som (e as longas pausas entre as músicas) e o pouco tempo de actuação (com o abandono do palco (literal) de Sidónio em “Apêndices” foram pontos negativos num concerto talvez ainda mais intenso do que quando tudo corre nos trilhos. A Locomotiva de facto não sabe dar maus concertos e é nisso que se separam os músicos dos “wannabe”.

Depois da intensidade de Bizarra Locomotiva, o Neo-Folk (ou Suicide Pop como a banda lhe chama) dos Spiritual Front caiu um bocadinho em saco roto. Guardámos energias para as últimas bandas da noite, perdendo o Death Metal dos Bleeding Display e regressarmos aos anos 80  com o Gothic Rock dos Phantom Vision. Competente e teatral Q.B.

Para o final, o experimentalismo do duo italiano ÖvÖ. Naquilo que foi mais uma “jam” do que um concerto, como nos explicou previamente a vocalista/ guitarrista Stefania, ficou a ideia de um trabalho bem estudado em termos de possibilidades sonoras na exploração do “gear”, assente numa base que tem tanto de minimalista como de visceral.

Galeria dia II aqui

Day III

A primeira metade do último dia do SMSF foi dedicada ao Black Metal, desde as suas variantes mais tradicionais ao quase “Prog”. Excepção feita para os The Royal Blasphemy que abriram o dia no palco “Forest”. O Rock musculado injectado de vitaminas Nu/ core mostrou uma banda bastante competente em palco e a atitude e costela mais Rock do quarteto foram um bom aperitivo para a restante noite.

Já no palco principal e debaixo de um sol abrasador, o “corpse paint” dos Empty acabou prejudicado por um som bastante confuso das guitarras, especialmente notório no “tremolo picking” de influência nórdica dos Espanhóis. Pena, porque a banda a tempos foge ao óbvio explorando outras sonoridades.

Mantendo o registo no Black Metal de influência nórdica, desta feita versão “Symphonic”, os Blasphemium. Bastante competentes, ainda que “não inventem a roda” e com um bom jogo de melodias entre as guitarras. Destaque para o trabalho (e entusiasmo) do baterista Beelzebud, mais interactivo com o público que todo resto da banda junto. Ficamos com curiosidade por ouvir um novo trabalho dos espanhóis, visto que “Obscure Aurea Celestium”.

Sem recorrem a “corpse paint” mas com mais Black Metal nas veias (J.A. na guitarra, Vulturius na voz/ baixo e Nocturnus Horrendus na bateria), os Decayed entraram ao som de “Onslaught of the Holy Flock” e numa prestação particularmente inspirada e sempre bem-disposta do trio, percorreram a discografia da banda, num set-list igual ao apresentado em Barroselas, só faltando a cover de Sodom no final.

Algumas alterações na programação (os horários neste ultimo dia foram mais “soltos”) e de seguida é a vez da banda-surpresa do Festival. Os Sistemik Violence reúnem algumas caras conhecidas do nosso “underground” (nada de “spoilers” da nossa parte) e descarregaram uma dose de “crust” entrecortada com pequenas intros/ samples,   perante uma plateia que encheu a tenda do palco “Forest”.

De regresso ao Black Metal e ao palco principal, os suecos IXXI. Com uma vincada veia belicista (a par de outros Suecos), o quinteto é bastante competente em palco. Musicalmente sem abusarem do “blast beat”, sabem tirar partido do “mid-tempo”, estando muitas vezes bem mais perto do Death/ Thrash do Black. Se conseguirem imaginar um casamento entre os antigos Morbid Angel e os Hail of Bullets, ficarão com uma ideia. A descobrir.

A primeira banda a ser anunciada para a 7ª Edição do SMSF foram os Rotting Christ, ainda antes de lançarem o excelente “Rituals” e os Gregos eram das presenças mais aguardadas dos três dias. E valeram todos os cêntimos, todos os minutos na frente-palco. Uma banda que tem sabido renovar-se e reinventar-se, umas vezes com mais sucesso que outras é certo, mas que no total dos seus 11 álbuns de estúdio sempre soube manter uma identidade própria. Numa actuação sem pontos mortos nem “fillers”, a banda conquistou totalmente o público. O compasso ritualístico de músicas como “Apage Satana” quase sem guitarras curiosamente não soa deslocado de visitas ao fundo de catálogo como “Thy Mighty Contract” ou “Non Serviam” (em Encore). Só faltou “King of a Stellar War” para ser perfeito.

No palco “Forest”, os brasileiros Mausoleum voltaram a relembra-nos dos primórdios do género, e talvez pela nacionalidade, vieram-nos à memória os inícios de Sepultura e Sarcófago. Longe de tecnicamente perfeitos (o estilo tb n o pede), a introdução de partes mais compassadas revela-se uma excelente receita.

Tem sido tradição no SMSF a inclusão de um nome forte do Punk, as “velhas glórias” como são por vezes referidos. Mas também tem sido a tradição (com uma óbvia excepção) que as “velhas glórias” têm dado cartas. Já o escrevemos anteriormente: o peso dos anos abrandou alguns excessos e hoje temos direito a vê-las na sua melhor forma. Os Extintion of Mankind não foram excepção. Com uma costela mais Metal, o quarteto britânico deu um concerto bastante energético (ainda que por momentos tivéssemos algum receio com a saúde do baixista) e o público respondeu. De salientar contudo que a ideia de colocar umas grades improvisadas na frente palco (para impedir invasões de palco como em edições anteriores) não foi das mais bem pensadas: à fraca resistência das mesmas, um reparo: é habitual os fotógrafos ficarem do lado de dentro das grades, não entre o mosh e as mesmas.

Seguiu-se o “motivo da discórdia nas redes sociais” que foi a inclusão do Hip-Hop de Allen Halloween no cartaz. Entendemos a casmurrice da organização, mas de certo, deixando à parte considerações sobre a validade da inclusão de dois estilos tão antagónicos, é que nos parece que a escolha não terá sido a melhor. Ainda que não seja estilo musical consumido por estes tímpanos, pareceu-nos uma base instrumental pobre com um spoken-word de clichês sarcásticos.

A última noite ainda tinha para oferecer o ”Dark Ambience” do projecto Átila e o experimentalismo “Folk” de A Foice. Ambos os projectos nos pareceram apostas interessantes dentro do ecletismo musical que pretende ser apanágio do festival. Achamos contudo que poderiam ambos ter beneficiado de uma outra distribuição no cartaz.

Galeria dia III aqui

Algumas considerações finais:

O saldo da edição de 2016 do SMSF é francamente positivo. O preço, a localização, a oferta de merch/ comida, um bom cartaz e um excelente ambiente são argumentos mais que suficientes para que o SMSF seja O festival a sul do Tejo. Haverá sempre aspectos a melhorar: a sobreposição de bandas entre os dois palcos, e as alterações aos alinhamentos/ horários são pontos em que o SMSF aparentemente regrediu face às edições anteriores. A nova localização garantiu melhores condições em termos de organização do espaço e o Parque de Merendas oferece bastante área de sombra (ainda que a custo das instalações sanitárias). As condições sonoras são sem dúvida outro aspecto a melhorar (inclusive a separação entre os dois palcos), já que a distribuição do som foi tudo menos uniforme na área de frente do palco principal (uma área mais aberta pede outro sistema de som). Mas uma escolha eclética de cartaz (tanto em termos de sonoridade como de popularidade) e  uma boa adesão em termos de público (na noite de sábado só a cerveja não esgotou) são argumentos suficientes para que o SMSF se afirme cada vez mais como parte importante no roteiro dos Festivais de Musica em território nacional.

Os nosso agradecimentos à organização e staff.

Texto: Sethlam Waltheer

Video gentilmente cedido pela Santa Maria Summer Fest, produtora Eagle Wall

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