Rock à Antiga uma conversa com os Porta Voz

Quando recebemos o email com os dados da banda Porta Voz estávamos longe de pensar que um dia estaríamos frente a frente para uma entrevista com eles e com o mítico Orlando Cohen. Mas a verdade é que a vida é dos audazes e por isso mesmo, propusemos a medo um encontro para uma entrevista dentro do limitado horário da sua agenda. A resposta foi pronta e generosa, um sim, que nos deixou felizes e ansiosos.

Foi difícil ajustar “agulhas” mas com boa vontade, algo que agradecemos desde de já, lá marcamos no calendário.

Domingo dia 12 de Abril no final do dia na Marina de Oeiras, por isso lá nos pusemos a caminho com a certeza que seria um momento memorável, foi somente após chegada que constatamos um facto que poderia deitar a perder todos os planos, não tínhamos nem solicitado nem facultado o contacto… o problema não seria reconhecer o Orlando seguíamos o seu percurso desde de sempre por isso não seria um problema… o pior era que não o víamos em lado nenhum e após a verificação do email, ficamos na dúvida se não teríamos de ir a Cascais e não a Oeiras. Avançamos a todo o gás para o carro enquanto enviamos mensagens para todos os locais que tínhamos acesso, quando pelo canto do olho os vimos.

Sorriso aberto, “ah são vocês?”… alivio instantâneo… afinal não íamos perder o momento.

Sentamo-nos numa esplanada ainda aproveitando os últimos raios de sol e entre cafés e gargalhadas começou assim a nossa conversa…porque mais que uma entrevista foi uma conversa que estaremos eternamente gratos

PORTA VOZ-LOGO AMARELO

Orlando Cohen – O mundo da música mudou muito nos últimos 30 anos, tanto para as bandas, como para a indústria da música, por exemplo os CD’s, eu estou a trabalhar em Inglaterra já há 12 anos e para aí há 6 anos ainda havia lojas de CD’s nos aeroportos, com CD’s dos Smiths, Beetles, Clash, isto e daquilo…

Loudness Magazine – E agora?

OC – Agora já não há! Para aí à 5 anos que fecharam, e eu lembro-me que que há 6 e 7 anos, porque eu já estou neste trabalho há 9 anos, quase que já não se vendem CD’s. Só em lojas da especialidade como a Carbono e a Fnac e pouco mais.

LM – E agora começou a haver concertos de streaming e musica nesse formato com o Spotify por exemplo

OC – Por outro lado podes encomendar CD’s pela internet. Eu queria comprar o primeiro dos Clash (que foram dois a edição americana e a inglesa) e entre os dois, existe uma diferença de duas ou três músicas e eu queria não conseguia encontrar, fui a várias “Fnacs”e nada, fui à internet e 4 dias depois estava em minha casa.

LM – Maravilhas da internet

OC – Isto para dizer que mudou muito a musica para as bandas, indústria discográfica e imprensa, o Blitz que era um jornal e agora é uma revista. Tudo mudou.

Jorge Correia – O mundo agora gira mais rápido…agora é completamente diferente.

OC – Nós somos mais ou menos a mesma coisa

(risos…) Aliás os risos foram uma constante e isso é muito bom

OC – Há valores que nunca mudam

LM – Mas Orlando, é isso que faz falta, valores, porque estava em conversa à uns dias e não me identifico com este tipo de comércio musical. Eu sou daqueles que gosto de ter o CD ou o Vinil e ter o booklet e ter o cuidado de tirar o CD de o puder ler…

OC – Claro, ter uma colecção de CD’s, eu tenho uns 500 e tal CD’s todos originais…

LM – Exacto,  agora o pessoal é tudo pastas no PC e tem ali os MP3… o ritual de sentar e mexer e ler, ver as letras e as fotografias…não é a mesma coisa.

OC – Querem tirar apontamentos? Ou assim?

LM – Está a gravar

OC – Ah querem apanhar-me!

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OC – Esta banda ( Porta Voz ) começou em 1995/96 comigo e com o Bruno. Eu conheci o Bruno no Bairro Alto e surgiu logo uma interligação, eu e ele gostamos muito de Xutos e como eu já tinha sido dos Peste e dos Censurados, que são bandas que ele curte muito e não imaginou que iria tocar comigo… quando nos juntamos não tínhamos baterista, e arranjamos o Álvaro com quem gravamos 2 maquetes e que esteve 1 ano connosco, depois arranjamos o Luís, Luís Câmara em seguida tivemos o Anselmo, grande Anselmo dos Lulu Blind, mas não resultou, tivemos um ano e pouco com o Paulão e gravamos 2 discos com ele, que era  baterista dos Ferro e Fogo e depois à pouco tempo diria que já quase um ano, arranjamos aqui o nosso amigo (Jorge) e está a rolar, está impecável.

LM – Com estas mudanças todas quem são os Porta Voz agora,  para quem não vos conhece.

OC – É assim, os Porta Voz tiveram muitas mudanças mas foi só na bateria, eu e o Bruno sempre tivemos os dois e como somos os dois que compomos mais as músicas… nós começamos a banda e andamos sempre com bateristas, que pronto não eram os ideais, mas mais valia andar assim do que sem, agora arranjamos o Jorge que veio completar a banda. Na altura entre 96 e 98 nós gravámos 2 maquetes, uma foi com 7 temas que são os primeiros temas e que regravamos á uns 4 anos no disco “Não vou ser assim”, que é nosso primeiro CD, porque os outros eram maquetes em K7, depois gravamos outra maquete com o Luis Varatojo com 4 músicas duas delas muito fixes que é “Rotina de Interesses” e o “Verão Cheio de Sol”, onde convidamos o Gui para meter saxofone, como já tinha acontecido no primeiro disco dos Censurados no “É Difícil” , agora no disco mesmo, quando gravamos o “Verão cheio de Sol” não convidamos.

A banda existiu entre 96/ 98 e em 98 acabou, em meados de 2010, eu estava um dia em Cascais a passear e lembrei-me “vou telefonar ao Bruno a ver se fazemos de novo a banda”, só que eu trabalho em Inglaterra estou duas semanas cá e duas lá, nas  duas semanas que estou por cá é quando dá e  é melhor que nada,  recomeçamos a banda em 2010, gravamos o disco, já tínhamos as músicas da primeira fase de Porta Voz 96/98, a maior parte, só para aí 3 ou 4 é que não, mas são 12 musicas e 8 ou 9 são dessa altura, portanto o disco já estava quase feito, este segundo é que foi feito com músicas entre o primeiro disco e este, apesar do nome do 2ºdisco a musica “Obrigação Alucinação” ser da primeira fase de Porta Voz.

LM – Vocês fizeram esse hiato porque acharam que tinham de acabar, precisavam de descanso?

OC – Acabou porque, a minha vida não estava a dar para estar numa banda, eu estava a pensar em ir para Inglaterra, sair daqui, estava farto disto, não dá para trabalhar aqui e ganhar a miséria que se ganha senão é difícil ir a algum lado mas também o ir trabalhar para fora não é fácil, é puxado, não é relax como eu vejo muitas pessoas

LM – Vocês falam na vossa press-release que querem reinventar o rock, como?

OC – Quem é que escreveu isso??

(…risos…muitos risos…)

OC – Nós não queremos … eu não sei quem é que escreveu isso

(..risos…)

OC – Nós somos um exemplo de pessoal que gosta muito de música, já toca desde muito jovem, eu comecei a tocar guitarra aos 14 anos, e que gosta de tocar numa banda, apesar de uma banda dar muito trabalho, e gasta-se muito dinheiro em ter uma banda

JC – Mas o gozo e satisfação é maior

OC – Temos de pagar uma sala de ensaios, 100€ por mês entre os 3, não é muito, mas é mais uma despesa fixa, como temos água , gás, electricidade, se por um motivo se estraga material como aconteceu com o meu amplificador é mais um custo, quando vamos tocar, tenho que levar o meu carro com os custos que isso acarreta, gasolina, jantar e depois chego ao fim da noite e ganho 6 ou 7€, nem sequer paga quase a gasolina, fazemos isto pelo gosto da música, é uma coisa especial na nossa vida, para nós ter uma banda, é como existem pessoas que gosta de exercício físico, gostam de nadar, nós temos uma banda… só que a termos uma banda e devido ao tipo de vida que já tivemos mais eu que o Bruno até, somos uma banda que gostamos de criticar a sociedade, porque existem coisas que estão erradas, já vi muitas injustiças neste sociedade, em que uns tem tudo e outros não tem nada, isto assim nunca há-de ser bom, vai ser apenas para alguns, temos de ter Porta Voz dessa maneira, ter uma banda que critique o que temos à volta. Para ti até pode não ser mau, mas para nós é, na nossa maneira de ver as coisas.

LM – E essa tua evolução e tudo o que passaste, mudou a tua forma de ver a música ou sempre tiveste esse sentido critico?

OC – Sempre, todas as bandas que eu toquei foram nessa onda, Peste, Censurados…

LM – Critica Social

OC – Porquê, porque eu desde de muito novo que sempre fui um revoltado em relação a isso, vi muito, sofri muito, por exemplo, se de repente te encontras sozinho, esta sociedade não tem muitas ferramentas para ajudar não existe informação. E eu vi que há muitas coisas na sociedade que estão erradas e isso sempre me fez querer tocar em bandas de crítica social e dizer “Isto esta mal tem de se mudar já!” Então bora tentar mudar isto.

JC – E fala-se das coisas que muitas vezes ninguém fala.

OC – Isso é que é ser Porta Voz. A ideia original de Porta Voz é isso.

LM – Que acaba por ter a influencia que sempre tiveste dos Peste e Censurados e por aí fora e em termos de sonoridade também.

OC – Mas nos Pestes e Censurados eu também pus o meu cunho

LM – Exactamente e quando ouvi o som pensei isto é muito bom e transportou-me…

OC – O som de quê?

LM – O som dos Porta Voz quando eu ouvi o som transportou-me automaticamente e depois quando vi Orlando Cohen pensei, bem me parecia…

JC – Bem me parecia que aquela guitarra bem marcada…

OC – Olha digo-te uma coisa tenho melhor material agora do que tinha na altura. Tenho melhor material de instrumentos nos Porta Voz do que tinha na altura de Peste e Censurados, o amplificador é o mesmo mas agora tenho outra coluna e agora tenho uma Gibson Les Paul na altura tinha uma Fender Telecaster que ainda tenho, mas nunca tinha tido uma Gibson…

LM – Mas a verdade é que pudemos usar a arte seja ela qual for para puder mudar algumas coisas, mas também existe dificuldade na aceitação do público que continua a achar que o que vem de fora é que é bom, durante estes anos de experiência o que viste que valeria a pena salientar que mudasse a aceitação do público?

OC – E assim como eu estou fora durante muito tempo eu só vou quase aos nossos concertos mesmo tocar nestes últimos tempo, pelo que eu vejo existe muita coisa no Facebook

JC – Há muita oferta

OC – Há muitas bandas tipo os Artigo 21, os Dalailume, os Decreto 77 sei lá é bandas que nunca mais acabam

JC – Sim e cada vez está mais descentralizado

OC – Por outro lado e comparando com o antigamente o pessoal agora não adere tanto à música ao vivo eu lembro que há 1 ano e meio fomos tocar ao Bairro Alto, ao Fantasma Lusitano quando ainda estava aberto estavam lá umas 15 pessoas a ver o concerto e depois quando eu sai levei as minhas coisas para o carro subi essa rua virei a esquerda… a rua estava cheia de gente. Quer dizer o pessoal não liga a concertos prefere estar na rua a beber copos do que ir ver uma banda hoje em dia, na altura em que nós tocávamos em Peste e Censurados havia um concerto e não havia tanta divulgação como agora…

JC – Também não tinhas tantas bandas, nem tantos concertos a acontecer

OC – Naquela altura os concertos eram anunciados e havia muitas bandas também e adesão era maior…há pouco pessoal, eu não sei, ou há muita oferta ou então o pessoal está mudado

LM – Ou então é a lei do menor esforço

OC – A era digital mudou a maneira de ver as coisas

JC – Facilita mais

LM – E muda porque antigamente para nós vermos uma banda ao vivo tínhamos de a ir ver ao vivo, hoje em dia com Youtube… claro que nunca é a mesma coisa mas é mais fácil ver em casa do que nos deslocarmos ao sitio, podes por pausa no concerto infelizmente…

OC – Claro a cena digital e da internet mudou muita coisa mudou mesmo a industria musical mesmo da loja dos CD’s  o pessoal agora é mais tudo pela internet não tem tanta qualidade tu estares a ver um vídeo no Youtube ou ver pelo computador…

LM – Eu acho que o consumidor já não liga a isso quer é curtir a cena para puder falar, não quer saber se tem mais ou menos qualidade

OC – Se tem baixo, se ouves o baixo…

LM – Exactamente se conseguem definir

OC – Há pessoal que gosta… eu tenho um colega meu no trabalho  na última vez eu fiquei com ele no hotel ele anda a comprar umas coluna de 500 e tal ou 1000€ depois põe lá uma cenas… mas acho que tens razão a maior parte do pessoal quer é ouvir a melodia

JC – Mas acho que também tem a ver com o estilo das pessoas praticamente não tem tempo para nada e então chegam ao computador e vêm.

OC – Já não há aquela coisa, penso eu, ou então quando vem uma banda estrangeira tipo uma grande banda é diferente, mas já não há vontade, na altura por exemplo quando os concertos de Peste e Sida e Censurados era anunciados nós próprios andávamos a colar cartazes, não muitas vezes, mas algumas colávamos cartazes. Por exemplo num concerto de Peste e Sida que íamos  tocar ao Rock Rendez-vous, em Sete Rios eram duas e tal da manha com cola  e páginas e púnhamos perto do metro que é uma zona estratégica onde passa muita gente, pusemos no Bairro Alto perto do Elevador da Glória, na rua do Alecrim a descer até ao Cais Sodré, um aqui outro ali e chegamos lá estava cheio, agora? Hoje em dia… Porta Voz vai tocar ali… estão lá 15 pessoas ou 20, as vezes não… olha fomos tocar fora de Lisboa, em Sôr estava mais gente que costuma estar em Lisboa, cento e tal pessoas.

LM – É isso que eu acho no interior há mais aceitação ás bandas do que na cidade

JC – Porque há menos oferta

OC – Isto o mundo mudou…

JC – E também o Punk Rock é um género musical que não tem tanta aceitação como os outros…

OC – Na altura eu quando tocava em Censurados e em Peste eu vivia mesmo aquela cena, aquilo era a minha vida, as bandas eram a minha vida… hoje em dia por exemplo Porta Voz já não é, tenho o trabalho e Porta Voz é algo que eu gosto de fazer. Eu não me dedico a isto a 100% apesar de ter mais conhecimento agora que tinha a 20 e tal anos, mas o que fez aquelas bandas serem mais a sério foi o pessoal só fazer aquilo, não trabalhávamos, não estudávamos nada! A banda era a nossa vida era por isso que tinha 3 a 4 ensaios por semana, não era por mês como temos agora… nós respirávamos a banda. Nós acordávamos e a nossa vida era irmos ter uns com os outros para ensaiar e ir fazer uma entrevista… havia alturas que estávamos sempre a ir a televisão agora não há isso, por exemplo Porta Voz nunca foi a televisão fomos só a esses programas tipo RTP Asia.

LM – Passa também por hoje em dia o que passa na televisão é mais do mesmo

OC – Pois eu não vejo televisão também, vejo mas é lá em Inglaterra…

LM – Vocês no dia 18 vão participar no Sopapo, que estivemos a ver o cartaz e a forma como o descrevem é basicamente um festival que que dar conhecimento a bandas…

OC – que não são muito conhecidas

LM – Há falta disso também?

DSC00819 (2)OC – Há falta disso, é  preciso haver também, há muitas organizações que só se focam nos consagrados e esquecem-se que esses consagrados também foram pequenos um dia, e como pequenos que foram um dia, agora também existem outros pequenos que precisam de oportunidades e precisam de haver mais organizações desse tipo, para além das bandas fazerem por si e arranjarem concertos porque houve muitos concertos de Porta Voz que fui eu que arranjei via Facebook e no passa a palavra.

LM – Esse também é um dos nossos objectivos, há falta de divulgação das bandas pequenas, é só os grandes e o resto??

OC – É que as bandas uma vez para serem grandes tem de ser pequenas

LM – E sentimos também que não há resposta, independentemente de serem rádios, televisão, webzines senti que os pequenos, que mandam músicas, mandam contactos não tem resposta.

OC – Não tem resposta …é uma cena que eu consigo comparar com à 20 ou 25 anos atrás. Na altura havia mais adesão das pessoas, as pessoas ao verem um cartaz iam ver para conhecer, nós íamos ao Gingão e estava lá pessoal do meio, aquele pessoal do hardcore mesmo, e depois é pessoal que divulgava, perguntavam-me a mim e eu dizia a um, e ele dizia ao grupo de amigos dele e no outro fim de semana a seguir estavam lá todos, era fixe, havia mais convívio, entre o pessoal que gostava de rock, e vivia mais a cena, ou então sou eu que já não vou aos sítios certos…

LM – Nós achamos que antigamente até as próprias bandas eram mais unidas e ajudavam-se umas as outras

JC – Eram mais puras

LM – Sim, porque antigamente as bandas eram do estilo, bem eu vou fazer um concerto, espera lá, vamos arranjar mais 2 ou 3 para encher, porque se a minha banda levar 50 e a outra levar outros 50 já vamos todos tocar para 100, e agora é … eu sou o maior …não quero…

OC – Eu gostava que isto fosse diferente, se calhar sou eu que sou muito idealista. As pessoas deviam ajudar-se. As próprias bandas em Inglaterra ajudavam-se umas as outras e depois cada uma seguia o seu caminho, naquela de Anarchy in UK… A única banda que vi aqui fazer isso foram os Xutos, os Xutos foram uma banda e são que na altura, fins de 80 princípios de 90 convidavam muitas bandas para fazer as primeiras partes, eram Censurados, eram Ramp, Lulublind, deram oportunidade a bandas mais pequenas de  aparecerem num publico maior, foi o que aconteceu com Peste & Sida também, fizemos a primeira parte de Xutos, foi a primeira vez que tocamos num pavilhão cheio e o pessoal que ia ver Xutos, ficou-nos a conhecer também e demos um grande concerto passamos logo de não conhecidos para conhecidos em Lisboa, era o pavilhão de Moscavide, o que é que eles ganham com isso? Ganham amizade e respeito…nós por exemplo vamos tocar a um bar, há alguém que dá o contacto para irmos tocar a um bar, e nós dizemos olha dá para ir outra banda connosco, e o tipo diz, vocês é que sabem, se quiserem tem de dividir o cachet ou o dinheiro dos bilhetes pelas duas bandas, e nós falamos e decidimos se é melhor irmos sozinhos ou com outra banda, é sempre um concerto mais completo quando é duas bandas.

LM – Um povo sem cultura é um povo mais fácil de ser controlado

JC – Manipulado

LM – Com estes cancelamentos de apoios à cultura, como é que vocês se sentem ?

OC – Nós nunca tivemos apoio de ninguém, nós não sentimos diferenças

JC –É como a educação e a saúde não deveria perder apoios

OC – É assim, eu sei que Portugal tem um orçamento e tem uma economia muito fraca e muito má a comparar com muitos outros países da Europa, tipo Suécia, Finlândia e mesmo Bélgica e Holanda, as bandas desses países quando vão fazer uma tournée mandam CD’s para as câmaras e departamentos da cultura dos sítios onde moram, há uma votação e de 100 bandas escolhem 10 ou 5 que acham que são bandas que merecem ter divulgação, eles escolhem as 10 que acham melhores e pagam a tournée a essas bandas, obviamente que não vais viver luxuosamente, mas eles dão-te um valor por mês para tu poderes andar numa carrinha em 2ºmão por toda a Europa e no fim do mês vão ao banco e tem lá 500 ou 600€ que dá para manter a banda a rolar e a tocar em bares pela Europa toda, e passam pela Alemanha…nós não temos ajuda nenhuma,de nenhum lado, nós somos nós próprios o que por um lado as nossa bandas são mais.. é mais difícil ter uma banda cá que em Inglaterra…mesmo no tempo dos Clash, no principio do punk, em que eles estavam a viver do subsidio, nós não temos sequer isso, nem sequer subsidio de desemprego

(…risos…)

Por isso de certa maneira é mais difícil cá fazer coisas.

LM – Com  base nessa resposta que conselhos é que darias a alguém que estivesse disposto a começar agora na música?

OC –Para começar se é uma banda, façam como deve ser, sem computadores e samplers , é tentar comprar o melhor instrumento que possam comprar, dentro do budget que tem, depois é arranjar uma sala de ensaios e tentarem fazer música original, não é fazer covers…mas isso cada um é que escolhe…

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LM – Mas é isso que notamos, que falta “garagem” a muitas bandas

OC – Ensaiarem muito e fazerem uma cena fixe, agora, não é fácil

JC – E tocarem pela música e não por protagonismo

OC – Claro, não é fácil conseguir juntar isso tudo principalmente juntar pessoas que tenham a mesma onda de música, que se adaptem, que gostem do que estão a fazer, porque eu por exemplo não conseguiria tocar em qualquer tipo de banda,  tem de ser um tipo de som que eu me sinta identificado. Havia pessoal que dizia, vai tocar com o Emanuel…

JC – Ou o Toninho

OC – É isso é que dá “guito”, mas eu não sinto aquela música, não conseguiria tocar aquilo…porque eu para tocar uma coisa, tenho de ser um espelho do que eu sou…

JC –Acima de tudo tens de ser verdadeiro contigo mesmo

OC – Apesar de eu gostar de muitos tipos de musica, não gosto só de musica com distorção, gosto de musica acústica, gosto de muitas coisas.

LM – E com quem é que vocês gostariam de dividir o palco?

OC – ui … banda portuguesa ou internacional?

(…risos…)

LM – O que tu quiseres

OC – Os Clash claro…mas isso é impossível

JC – Com uns Specials, Madness…

OC – Cá em Portugal, gostava de voltar a tocar com os Xutos, por exemplo, ou com os Peste … Porta Voz e Peste ou Porta Voz e Xutos …

LM – Gostávamos de ver qualquer um desses concertos

OC – Os Xutos são uma banda que eu tenho muito respeito por causa disso, são a banda mais Rock’n’Roll de sempre em Portugal e não há outros que possam sequer ser comparados com eles. É uma banda incrível porque atravessou estes tempos todos, e ainda estão aí, tiveram problemas entre eles e mesmo assim…

LM – Mantiveram-se fieis a eles mesmos

OC – Abriram portas a muitas bandas, eles na altura do “boom” do rock português eram considerados tipo uns marginais…antes de aparecer Peste & Sida e Censurados, na altura de 78, 79 eles eram tipo … outsiders…

(…risos…)

OC – Os Xutos eram considerados os underground, marginais…

JC – O país tinha saído do que sabemos!

OC – Eles foram quase a raiz das bandas punk,ajudaram bandas como eu disse, nós tocamos 15 ou 16 primeiras partes de Xutos, com os Censurados, Peste & Sida, fomos tocar a Guimarães com os Xutos,  ao Campo Pequeno, com a primeira parte de Bob Geldoff, aqui na margem sul, a Sintra, ao Algarve e ao Alentejo a uma praça de touros que aquilo era só aquele pó castanho  e nós a tocarmos e muito vento…ouve… à noite o Cabeleira ficou com a guitarra cheia de pó, durante os próximos concertos abria a guitarra e ainda tinha pó…(…risos) nós fazíamos a 1ªparte deles andávamos com eles na estrada, mas era fixe…altas cenas que um gajo viveu…mesmo vida de Rock’N’Roll

LM – Os Xutos, eles foram e mantiveram-se fiéis aos princípios

OC – Eu agora não os tenho visto, pronto pessoalmente, mas são uma banda mesmo a sério para mim. São a banda mais Rock’N’Roll de Portugal … a sério…

JC – Sem dúvida

LM – E com o espírito de entre-ajuda que é uma coisa fabulosa

OC – Isso então é uma cena que eu fico eternamente agradecido a eles, ao Zé Pedro e a eles todos por terem dado a oportunidade de fazer as primeiras partes deles e outras coisas, 2 discos de Censurados, eles criaram a El Tattoo de propósito para lançarem o 1 disco de Censurados, já estavam na Polygram, já tinham vendido a “Casinha” e o “Circo de Feras”, e podiam nem querer saber dos Censurados e dos Peste & Sida, mas fizeram e lançaram o nosso disco, e ainda fizeram um teledisco…o Tim fez o “É Difícil”

LM – E projectos para o futuro, onde é que os podemos ver? Fora o Sopapo?

OC – Confirmados temos o dia 18 de Abril no Sopapo e vamos estar dia 9 de Maio no concerto do Ribas na Republica da Música em Alvalade, as restantes datas ainda estão por validar e já estamos a compor outra música para outro disco, temos algum material, devíamos ter mais…

LM – Mas é complicado…

OC – É difícil

LM – E então definam os Porta Voz numa palavra

OC – ROCK

LM – Rock à moda antiga

OC – Isso já é mais que uma palavra

(…risos…)

OC – E pronto, que é que há mais??

LM –Tá feito…

E estava mesmo feito… disseram que iriamos ser nós a Loudness a ser os entrevistados, não foi assim… mas obtivemos uma lição de vida, de vontade e principalmente de generosa dádiva.

Por nós muito obrigada pelo maravilhoso final de tarde e esperamos sem dúvida ver vos em palco…em muitos palcos… em todos os palcos do país… porque o país precisa de mudar e a música precisa dos Porta Voz.

Rock n’Roll sempre!

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