Deserto, um oasis no rock português

    07032015-deserto-5  Confesso que me sentia nervosa, receosa pela forma como iria correr a minha entrevista, e o facto de conhecer e admirar quem iria entrevistar, deixava-me mais ansiosa se é que tal fosse possível.

Fomos recebidos de uma forma extremamente cordial… quase que como se fossemos “de casa”, quando assim é os sorrisos aparecem com uma facilidade tão bonita, que desejamos que tudo na vida seja assim.

O quebrar verdadeiramente do gelo ficou por conta do vocalista Miguel Sousa que enquanto se acomodava no sofá diz: “Bem isto parece mesmo profissional, até fiquei nervoso”

E assim, como se de um estalar de dedos se tratasse, o que começou como uma entrevista, transformou-se numa conversa entre amigos:

Loudness: Como surgiu a ideia de se unirem e criarem os Deserto?

07032015-deserto-2Deserto/Paulo Basílio: Nós os três (Paulo Basilio, Mário João e Jô Gonçalves) já nos conhecíamos visto que tocávamos os três com os Ex-Votos, já tínhamos seguido cada um para o seu lado, quando surgiu o convite da família do Zé Leonel (vocalista dos Ex-Votos falecido a 21/04/2011) para um concerto de homenagem, já não tocávamos juntos há uns 4 ou 5 anos e a verdade é que a química nunca se perdeu e eu cheguei à conclusão que estava na altura de fazermos alguma coisa juntos e surgiu a hipótese de falar com o Miguel, que estava a procura de um projecto em Português… Miguel podes tu falar sobre isso;

Deserto/Miguel Sousa: Posso claro, a verdade é que eu sou o mais novo deles todos e cresci a ouvi-los tocar e a assistir os concertos já tocava e cantava há 15 anos e então surgiu a oportunidade de me juntar a eles, só voz, num projecto em português.

Loudness: Embora tendo todos vocês uma grande experiência no mundo da música, os Deserto podem ser considerados uma banda nova no mercado. Como definem os Deserto?

Deserto/Paulo Basílio: Rock Português. Aliás puro Rock n’Roll em Português.

07032015-deserto-6Miguel Sousa: Sim. Fazemos questão de levar para os concertos aquilo que gravamos. Sem muitos efeitos… somos fieis a nós mesmos e ao que ensaiamos.

Loudness: Foi difícil fazer a com que os fãs das bandas que antigamente faziam parte vos vissem com uma nova “roupagem”? Ou a transição foi fácil de se realizar?

Deserto/Paulo Basílio: Não se trata de ser difícil ou não porque aqui esta questão nem sequer se levantou. Um projecto em nada tem a ver com o outro. Quem nos conhecia como Ex-Votos diz que gosta muito, que estamos diferentes… que em nada se assemelha uma com a outra (é bastante agradável presenciar a leveza como os Ex-Votos são referidos. E sentir o carinho que sentem também… foi um privilégio sentir isso ao vivo e não podia deixar de partilhar com vocês que nos lêem), quem não nos conhecia gosta. Nada nos dá mais prazer que ir tocar e reconhecer caras na plateia e isso que acaba por nos mostrar que estamos a chegar a mais gente com a nossa música.

Loudness: Viver da arte em Portugal, seja ela qual for, não é algo fácil. Como conseguem conciliar os Deserto banda e os integrantes dos Deserto cidadãos comuns?

07032015-deserto-3Deserto/Jô Gonçalves: A essa posso começar eu a responder, já que sou professor de música e dou aulas de bateria, pelo que o meu dia-a-dia esta sempre ligado a música. Mas tentamos conciliar da melhor forma

Paulo Basílio: E hoje em dia a verdade é que não temos que provar nada a ninguém fazemos o que nos dá prazer e só por isso dá-nos mais tempo à família sem nos preocuparmos em fazer aquilo que uma editora exige, com base em não ficarmos na prateleira, e isso muda tudo. Muda a forma de encaramos as coisas.

Miguel Sousa: Claro que seria hipócrita dizer que não gostaria de fazer a minha vida só com a música. Claro que gostaria.

Paulo Basílio: Claro que sim. Mas o facto de não estares sujeito a estatísticas permite-te tirar prazer no que fazes.

Loudness: A pirataria é um mal comum para todos os autores em Portugal e no mundo. O que acham da nova lei da cópia privada?

Deserto/Paulo Basílio: Sou totalmente contra, aliás porque a lei parte do pressuposto que qualquer Pen ou CD virgem será para piratear alguma coisa e a realidade é que muita gente precisa deles para trabalhar, o que origina uma taxa injusta.

Além de que verdade seja dita isso pirataria sempre existiu, eu fartei-me de fazer isso com as cassetes na altura dos discos de vinil… um disco servia para uma data de nós ouvirmos a música em casa. E acredito que as pessoas façam isso pelo prazer em ouvir música e a sua incapacidade de os adquirir.

Miguel Sousa: E a afectar mais seria as grandes companhias discográficas, até porque tu fazes dinheiro nos concertos que dás e não tanto nos CD’s que vendes por isso não é por aí.

Paulo Basílio: Verdade. E a mim dá-me um prazer do caraças saber que alguém se deu ao trabalho de piratear uma música minha… que se deu ao trabalho de a procurar e de a sacar. E no fundo para as bandas underground até ajuda, porque chegas a conclusão que não é tão caro assim o original e por esse valor, podes ficar com algo melhor. E é uma boa forma de te ouvirem e ao ouvirem desenvolverem a vontade de te ver ao vivo.

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Loudness: Dave Grohl vocalista dos Foo Figthers disse sobre os programas de talentos e passo a citar “Não quero que meu filho pense que a única forma de se tornar um músico é ficando em uma fila de teste de um concurso de música para depois ouvir, de um mentor, que você não é um bom cantor. Para mim, a música não é assim”, a verdade é que se tem vindo a sentir um aumento crescente tanto nas participações como na aposta desses programas. Qual é a vossa opinião sobre isso?

Deserto/Miguel Sousa: São programas de Karaoke para mim, aliás tu depois não ouves originais, são cover.

Jô Gonçalves: Basicamente é o que eu sempre digo, eles são levados por toda uma produção atrás quando ganham o programa. São eles que patrocinam que te levam e resulta enquanto eles estão por detrás de ti, a acompanhar-te. Mas assim que esse apoio desaparece ou tens de facto talento e inteligência ou acabas num bar. Sobes alto enquanto o programa se mantém e nos meses que se seguem mas depois a queda no fundo da escada acaba por acontecer. E dás por eles em bares e só quando os vês é que te lembras… olha aquele é o tipo que esteve no programa X. Ou tens de facto talento, vontade e perseverança ou então dura aquele tempo limitado.

Loudness: Que conselhos dariam a quem esta agora a ingressar no difícil mundo da música?

Deserto/Miguel Sousa: Não entrem… estou a brincar… força de vontade.

Paulo Basílio: Talento, perseverança… força de vontade…muito ensaio. Tirem prazer no que fazem. Tenham a capacidade de aceitar que pode chegar alturas que estão a tocar para uma sala vazia, ou para uma plateia imensa que não está nem aí para o que estão a fazer. E aproveitem cada momento, cada ensaio. Existem ensaios que dão mais prazer que um concerto.

Loudness: Quais são as vossas referências musicais? E se vos fosse dada a oportunidade de dividir o palco com um outro músico/ou músicos quem seria?

Deserto/Mário João: U2 (das poucas vezes que Mário falou… tem uma presença simpática…calada… gostaria de o ter ouvido mais. Quem sabe numa próxima vez)

Paulo Basílio: Led Zeppelin. Adorava dividir o palco com eles.

Jô Gonçalves: Olha os Foo Figthers por exemplo.

Miguel Sousa: Não preciso dizer mais nenhum mas sim e talvez os Queen… em pós mortem mas gostava…

Paulo Basílio: Agora portugueses.

Miguel Sousa: Circulo Morto (acredito que esta tenha sido mais um gesto de pura generosidade…para quem nunca ouviu falar, vamos apresentar o Circulo Morto no primeiro Sons d’Cave, no entanto deixamos o link se quiserem matar a curiosidade)

07032015-deserto-4Mário João: Olha eu adorava dividir o palco com os Xutos.

Paulo Basílio: Olha sim… o João Cabeleira sempre foi um guitarrista que tive como referencia.

Loudness: Concertos? Já têm agenda?

Deserto/Paulo Basílio: Sim. Vamos estar no dia 11 de Abril no Fontória, 24 de Abril no Sideb em Benavente, 9 de Maio no Hard-Club no Porto e 4 de Julho em Braga. Aqui é que ainda não sabemos ao certo onde é porque temos dois locais em vista. Mas anunciamos brevemente.

Loudness: Por último definam-se numa palavra:

Deserto/Paulo Basílio: Deserto

Loudness: Porque num Deserto, existe sempre um Oásis?

Deserto/Paulo Basílio: Também… e porque o termo deserto é ambíguo… também pode ser deserto de algo.

Loudness: Muito Obrigada

Deserto: Obrigado nós.

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E foi assim uma conversa entre amigos… entre gargalhadas que, e pegando no termo usado por Paulo Basílio, nos deixou “DESERTOS” de os ouvir no dia 11 de Abril no Fontória.

Termino com uma frase da autoria dos Deserto que acho que resume muito bem este 4 excelentes artistas:

“Querem tornar-nos um deserto de cultura, um deserto de educação, um deserto de valores.
A música pode mudar o mundo! Não é apenas um lugar-comum… é a cultura, estúpido!
Esta é a nossa contribuição!”

E que contribuição!

Última nota: Os itálicos no meio das respostas dos Deserto são observações minhas. Espero que me perdoem o aparte.

O meu pessoal e sincero, obrigada, foi um prazer e uma honra conhecer-vos e desfrutar deste momento na vossa companhia.

Até breve Deserto

https://www.facebook.com/DESERTOportugal

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